Convivendo diariamente com personagens e tramas de uma novela, o público acaba se sentindo meio dono daquelas pessoas, consequentemente, se dá ao direito de opinar, torcer, e protestar quando discorda de algo. Essa semana, no Twitter, alguns telespectadores de Morde & Assopra, ao emitirem opiniões e darem sugestões para o desfecho das tramas, receberam a seguinte resposta do autor Walcyr Carrasco: “Amigos, novela não é eleição, onde todo mundo vota nos candidatos. É obra do autor e ele escolhe os finais que melhor transmitem sua mensagem!”. Ao dar tal afirmação, o novelista diminuiu a maior característica da telenovela brasileira, e a que a difere das tramas de muitos países: o fato de ser uma obra aberta.
Gravada com poucos capítulos de frente (não estamos falando do SBT), a novela é uma obra viva, que pode ser moldada de acordo com a reação do telespectador. Esse fator, aliás, fez com que Morde & Assopra fosse salva do fracasso (leia mais aqui). Com base nos índices de audiência, e em pesquisas qualitativas encomendadas pela Rede Globo, Walcyr diminuiu a participação dos dinossauros e robôs, deu destaque à Cássia Kiss, e fez com que a protagonista da história (a Júlia, de Adriana Esteves) passasse a circular por todos os núcleos.
Walter Negrão é um dos autores com maior percepção dos anseios de seu público. Recentemente, em Araguaia, deixou Solano (Murilo Rosa) com Stela (Cléo Pires), escolhendo um outro final para a apaixonada Manuela (Milena Toscano), só para citar um caso. Em Caminho das Índias, ao identificar a rejeição a Bahuan (Marcio Garcia), inicialmente o mocinho da história, a autora Glória Perez tratou de reforçar o romance de Maya (Juliana Paes) com Raj (Rodrigo Lombardi). Relembrar todos os casos em que trajetórias e finais de personagens foram alterados pela opinião pública daria um post sem fim.
Por sua duração, a telenovela é um gênero que precisa dialogar com quem assiste, concondar, e às vezes contrariar, justamente para que a história sobreviva ao longo período de exibição. Dizer que um autor de novela fez ajustes em sua trama para agradar não é diminuí-lo, mas enaltecer sua capacidade de escutar o receptor. Menosprezando a característica mais interessante das telenovelas brasileiras, Walcyr Carrasco contradiz a própria obra, cheia de mudanças para fisgar aqueles que mais entendem do gênero: os telespectadores.
