Arquivo do mês: julho 2011

A Mordida Perfeita

Sempre temos em nossas lembranças um filme, um seriado ou uma novela que guardamos como algo marcante, mas que quando vamos assistir novamente se revelam bem aquém daquilo que nos recordávamos. Vamp foi uma grata surpresa. Atualmente exibida pelo canal Viva, a novela deixa claras as razões que a tornaram uma febre em sua época de exibição: um casal central forte (Capitão Jonas e Carmem Maura), bons diálogos, um núcleo jovem criado na época em que Antonio Calmon ainda sabia escrever para jovens, uma protagonista carismática (Natasha) e principalmente o bom senso. A novela soube brincar consigo mesma, rir da própria cara, coisa que faltou em O Beijo do Vampiro, trama do mesmo autor exibida onze anos mais tarde.

Jorge Fernando foi o diretor perfeito para imprimir a Vamp o que não vimos em O Beijo do Vampiro, com a direção certinha de Marcos Paulo: um clima descontraído, mas sem deixar a tensão de lado quando ela era necessária. A novela até começou mais engessada, mas foi se aproximando do jeito ideal à medida em que os capítulos foram sendo exibidos. O Beijo do Vampiro se levou a sério demais, criaram uma trama inspirada em Harry Potter (menino que descobre que tem poderes e uma grande missão), investiram nas crianças, esquecendo os jovens, e a salada desandou: vimos uma novela sem vida.

Dizem que está nos planos de Calmon completar uma trilogia de histórias de vampiros. O tema está na moda, a tecnologia de hoje ajudaria a contar a trama como nunca e estamos mesmo precisando de uma telenovela totalmente fantasiosa, mas o autor não pode esquecer que, pelo menos aqui no Brasil, o primeiro passo para contar esse tipo de história é justamente não levando o tema tão a sério. Vamp está de volta para provar.

Anúncios

Uma fase nada engraçadinha

Foram divulgadas várias notícias durante esta semana sobre o corte que a Rede Globo fez em algumas cenas com os personagens gays de Insensato Coração, e a orientação dada aos autores da trama para suavizarem a abordagem. É notório que a emissora está “andando pra trás” nesta questão, já que ela foi abordada mais livremente em novelas do passado, como Vale Tudo, A próxima Vitima e Mulheres Apaixonadas, entre outras.  Mais livremente, porém sempre sem muito contato físico entre os personagens. Enquanto as séries americanas já exibiram beijo, casamento e até transa, aqui os personagens gays estão cada vez mais pasteurizados, apenas os esteriotipados parecem cair nas graças das pesquisas.

Entrei nesse assunto para chegar a uma minissérie de 1995: Engraçadinha. Adaptada da obra de Nelson Rodrigues, a trama estrelada por Claudia Raia e Alessandra Negrini com certeza não iria ao ar nos dias de hoje, pelo menos não da forma como foi realizada há alguns anos. Com a classificação indicativa, que mais acaba com a liberdade de expressão do que fiscaliza alguma coisa, e com os padrões atuais da Rede Globo, cenas como o beijo forçado de Letícia (Maria Luisa Mendonça) em Engraçadinha, e as caricias da lésbica na protagonista e em Cilene (Mylla Crhistie), dificilmente iriam ao ar.

Engraçadinha teve a sorte de ser produzida há 16 anos, o que parece um disparate de ser dito, mas é a triste realidade. A minissérie tem a cara de Nelson Rodrigues do primeiro ao último minuto. Uma bonita e justa homenagem, já lançada em DVD, que merece ser vista e revista, até porque dificilmente teremos algo parecido na dramaturgia brasileira atual.

 

O Dvd da minissérie Engraçadinha pode ser encontrado nos principais sites da internet com o preço médio de R$49,90. Ainda sobre a produção, vale destacar a estreia de Alessandra Negrini, roubando a cena como Engraçadinha jovem, e Maria Luisa Mendonça, arrebatadora como a prima Letícia, seu melhor papel na televisão até hoje, seguida da Buba de Renascer.

Boas previsões

Com quatro capítulos exibidos, podemos dizer facilmente: O Astro é mais novela do que qualquer uma das tramas atualmente em exibição. Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro conseguiram manter o clima da obra de Janete Clair (a marca dela é tão forte que não há como negar a autoria original), modernizando o que era preciso na dose certa.

O Astro tem o que falta, por exemplo, a Insensato Coração: vida. O casal principal tem química desde a primeira cena, embalado pela ótima “Easy Like Sunday Morning”. Rodrigo Lombardi, com o desafio de interpretar o papel imortalizado por Francisco Cuoco, tem provado que foi a escolha certa, e Carolina Ferraz mostra que amadureceu como atriz e está entregando sua melhor interpretação na TV até agora.

São as qualidades da novela (é até pecado chamar O Astro de macrossérie) que a ajudarão enfrentar seus maiores desafios: o horário de exibição e a fidelidade do telespectador acostumado com séries e a internet. Com esse novo formato, menor e mais ágil, a Globo, além de visar as vendas para o exterior, busca chamar um público novo, que olha para as novelas com cara feia.

É também a forma como busca esse público que pode ser o maior inimigo da trama: ao tentar contar a história de forma mais rápida, os autores podem acabar prejudicando o entendimento e o envolvimento do telespectador com alguns personagens. O passado de Herculano e sua transformação no professor Astro poderiam ter sido um pouco melhor desenvolvidos.

A novela não deve ter vergonha de ser brega (e realmente é em alguns momentos, incluindo a abertura), é isso que dá o clima da história, embora alguns instantes mágicos sejam um pouco desnecessários.

É através da participação de Francisco Cuoco que O Astro não nega as origens e presta uma homenagem mais do que merecida para o ator, para Janete Clair, e para a própria telenovela brasileira, uma senhora de 60 anos que merece respeito e reconhecimento. São remakes como O Astro e Tititi que mostram que a telenovela tem futuro se não renegar seu passado, e esse fututo não precisa de previsões: o sucesso vem simplesmente com a qualidade.