Precisava tanto?

Há alguns anos fiz um trabalho de conclusão de curso sobre a telenovela que analisava o fato das tramas brasileiras serem uma obra aberta, diferente do que acontece em muitos países. Conversei com alguns autores na época, entre eles Walcyr Carrasco pelo orkut. Eu queria que ele falasse sobre A Padroeira e Esperança, obras que sofreram muitas mudanças em função da baixa audiência inicial. O autor preferiu não comentar sobre as novelas porque, segundo ele, foram duas obras que envolveram muitas questões pessoais, e ainda me alertou para o fato de que os jornalistas costumam exagerar na questão da telenovela como uma obra aberta. Sempre achei estranho ler isso do Walcyr, sendo ele, na minha opinião, o autor que mais mexe em suas histórias quando elas estão mal das pernas. Morde & Assopra, que chegou a ter o titulo provisório de Dinossauros e Robôs, tem as figuras em sua abertura, mas hoje não tem quase nada de robô e muito menos de dinossauro.

Não há como negar que a novela melhorou, passou a apostar em tramas mais humanas, tocando o público e eliminando os excessos, mas para isso houve uma clara descaracterização da ideia central.  Algumas mudanças vieram em boa hora, tocaram fundo nas repetições típicas de Walcyr, e podem até ter servido como uma lição para o autor. O público não se identificou muito com o jogo de gato e rato do casal central e nem com o núcleo rural tão presente nas histórias do novelista. Resultado: Marcos Pasquim teve sua participação drasticamente reduzida e o núcleo caipira praticamente sumiu da história. Pasquim não vinha bem mesmo e os caipiras de Walcyr já estavam saturados há muito tempo. Todo autor se repete, mas a renovação é necessária.

O fato de ser uma obra mutável faz da telenovela brasileira um produto único, fascinante, mas é preciso tomar cuidado para não descaracterizar a história e desrespeitar personagens e atores. Em As Filhas da Mãe, Silvio de Abreu, em consenso com a Rede Globo, preferiu encurtar a trama do que fazer mudanças que iriam fugir totalmente do projeto idealizado. Walcyr sempre aposta nas mudanças, e dessa vez se deu bem,  já que a audiência subiu, mas para isso precisou afastar a trama da proposta inicial, eliminar personagens sem muitas justificativas e quase desaparecer com outros. Não sei que caso é pior e mais desrespeitoso com os atores: mantê-los para aparecerem uma vez na vida e outra na morte, caso de Cissa Guimarães e Susy Rego, ou eliminá-los sem dó.

Mudar uma trama e aproximá-la do público é necessário e faz parte da alma das novelas brasileras, mas é preciso cuidado para não acabar criando uma segunda novela. Morde & Assopra tem algumas tramas interessantes e bons atores, apesar do dialogo infantil e de certos personagens e situações excessivamente inocentes, e Walcyr Carrasco soube aproveitar as intervenções para valorizar o que de melhor tinha sua trama, mas pagou um preço alto por isso. Lá na frente, quando lembrarmos da novela, se lembrarmos, não a veremos como uma história homogênea. Quando as mudanças são muito grandes, a novela perde um pouco de sua identidade. Essa pelo menos se salvou do grande mico de ter o nome de Dinossauros e Robôs. Não que o titulo que levou seja uma maravilha.

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2 Respostas para “Precisava tanto?

  1. Rafael dos Santos

    Realmente não precisava tanto… Nunca entendi como alguém realmente pode acreditar que um robô futurista cor-de-rosa brigando com um dinossauro feliz seria válido.

    Infelizmente não dá mais para mudar a abertura, mas é legal essa abertura das novelas. Nunca tinha visto por esse lado. E seria até bom alguns filmes e séries internacionais poderem ter tal abertura.

    Parabéns pelo empenho Hugo, continue levantando discussões interessantes com esta. Muitos são preconceituosos em relação às novelas, mas pelos seus posts dá para ver que elas vão muito mais além do que o senso comum está acostumado a ver.

  2. Pingback: Mordendo a Língua « Apanhado Geral

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