Arquivo do mês: setembro 2011

Semelhanças que afastam

Após algum tempo deixando correr solta a troca de alfinetadas e acusações entre Aguinaldo Silva e Walcyr Carrasco, a maioria por parte do primeiro, a Rede Globo finalmente se pronunciou sobre as semelhanças nas trajetórias das personagens Dulce (Cássia Kiss Magro), de Morde & Assopra, e Griselda (Lilia Cabral), de Fina Estampa. A Central Globo de Comunicação disse que “a direção conversou com os autores e entendeu que as personagens eram distintas e que, portanto, não havia conflito entre as tramas”. Obviamente a direção entendeu errado, e não esperava o sucesso da faxineira da trama de Walcyr Carrasco.

Dulce e Griselda têm muitas diferenças, mas a essência é a mesma: são mães enganadas por seus filhos, envergonhados com a aparência e a origem delas. Enquanto Griselda nasceu para ser protagonista, Dulce quase se tornou uma graças a dois fatores: a interpretação de Cássia Kiss e ao interesse que a trama despertou no público, indiferente aos dinossauros e robôs do começo da novela. A emissora não tinha como prever o crescimento de Dulce, mas de qualquer forma deveria ter vetado histórias semelhantes indo ao ar ao mesmo tempo. O telespectador percebe e comenta as coincidências, o que certamente não impediu o sucesso da novela das nove, mas gerou comparações desnecessárias para a maior emissora do país.

Através de fotos e vídeos nas redes sociais que tanto gosta, Aguinaldo deu sua versão fatos. Griselda foi citada publicamente pela primeira vez em 2009, no blog que o autor mantinha na Globo.com. A partir dali a história da “marido de aluguel” foi comentada diversas vezes por seu criador, inclusive em um jantar que ele teve com o então amigo Walcyr Carrasco. Aguinaldo alega que na ocasião o autor de Morde & Assopra nada disse sobre ter uma trama parecida em sua próxima novela, e ele só teria se manifestado alguns meses depois, quando a Rede Globo detectou as semelhanças. Se as coisas realmente aconteceram desta forma, e é o que parece, a indignação de Aguinaldo tem sentido, Walcyr poderia ter falado sobre a história de Dulce, mas não havia a necessidade de lavar roupa suja em público. A emissora errou duas vezes: ao perceber os pontos parecidos das histórias e não fazer nada, e depois ao não interferir na desavença entre os autores, resolvendo a questão internamente.

Enquanto uma emissora do porte da Rede Globo perdeu a oportunidade de colocar ordem em suas novelas, e os autores perderam ao não entrar em um consenso, ganharam os telespectadores, que foram brindados com interpretações distintas, mas igualmente eficientes, vindas de atrizes do porte de Cássia Kiss e Lilia Cabral. Por alguns momentos as pessoas esquecem que suas personagens têm um certo parentesco e reparam em outra semelhança: o talento de suas intérpretes.

Anúncios

Hora de comemorar

O Astro tem um protagonista absoluto, mas quem está dando o que falar é uma atriz que nasceu para ser o centro das atenções: Regina Duarte. Dona de Clô Hayala, ela tem sido bastante criticada pelo exagero de sua interpretação, mas é igualmente defendida por aqueles que enxergam na atriz um mito da teledramaturgia brasileira.

Denominada namoradinha do Brasil na juventude, Regina por muitos anos ficou com o papel da heroína sofredora, e nunca encarou uma vilã de fato, um vazio em sua carreira. No meio do caminho, a atriz conseguiu brincar, e brilhar, em personagens como a Viúva Porcina, de Roque Santeiro, e Maria do Carmo, de Rainha da Sucata.

Nos últimos anos, Regina Duarte tem sido duramente criticada pela tinta carregada que dá às suas mulheres, como a Andréia, de Desejos de Mulher, e a Helena, de Páginas da Vida. A primeira, fruto de uma novela totalmente equivocada; a segunda, um papel sem grandes atrativos em uma trama com sérios problemas de direção e com superlotação de pessoas.

Em O Astro, Regina volta às origens ao dar vida a uma personagem criada pela mestra da teledramaturgia: Janete Clair, autora de alguns de seus melhores papéis. Interpretando Clô, a atriz faz uma homenagem ao gênero que a consagrou e à própria carreira. Ao comemorar, faz do papel uma festa, e está claramente se deliciando, construindo uma matriarca sem amarras, como a novela da qual faz parte. Entre as muitas críticas está a de que Regina Duarte desaprendeu a atuar. A verdade é que a atriz não tem mais nada para provar e está apenas se divertindo em cena. Ela merece.

Encantando com qualidade

Terminou na última semana uma dessas novelas que só acontecem de tempos em tempos, uma pequena ousadia que deu certo. Cordel Encantado não inovou na estrutura, estavam lá muito bem delimitados a mocinha, o herói e o bandido, mas ousou na temática ao misturar o sertão com o conto de fadas, saindo dos universos usuais. Foi um respiro muito bem dado no meio de tanta mesmice.

A audiência pode não ter sido nenhum estouro, mas a trama das 18 horas teve um público fiel, que acompanhou e torceu do início ao fim. A leve barriga na história, com o jogo de gato e rato entre Timóteo (Bruno Gagliasso) e Jesuíno (Cauã Reymond), não comprometeu a novela que se destacou pela produção e direção, e consagrou as autoras Thelma Guedes e Duda Rachid entre os grandes novelistas da atualidade. Nathália Dill, em mais um bom trabalho, Deborah Bloch, Zezé Polessa e Marcos Caruso foram alguns dos muitos destaques entre os atores, em um acerto de escalação.

A novela mostrou que experimentar é válido e que sair do usual pode fazer muito bem ao gênero e ao público, além de ter se tornado praticamente unanimidade entre a crítica. Com 143 capítulos, Cordel Encantado teve uma unidade difícil de ser conquistada entre as telenovelas, principalmente pela duração. Que a trama seja lembrada não apenas pela qualidade, mas como um modelo a ser seguido.

Na Banca do Povo


Há na internet um mercado pirata de venda e troca de novelas, verdadeiras raridades como Rainha da Sucata, Tieta e Pantanal. Também é possível encontrar em redes sociais links para downloads, disponibilizados por pura boa vontade por amantes da teledramaturgia. Enquanto isso, a Rede Globo, detentora dos direitos das tramas, come bola. Desde junho de 2010, quando lançou Roque Santeiro em DVD, apenas Irmãos Coragem foi colocada oficialmente no mercado.

Tudo indica que o próximo lançamento será Dancing Days, e depois, segundo informações não-oficiais, Escrava Isaura e Que Rei Sou Eu. O final do ano se aproxima e nem em pré-venda a trama de Gilberto Braga está. Enquanto isso, na rede as novelas se multiplicam. São gravações das versões originais, do Vale a Pena Ver de Novo e até da Globo Internacional.

As versões “piratas” têm duas vantagem que os DVD`s originais nunca conseguirão alcançar: o valor, bem mais baratos ou de graça; e a edição. As novelas gravadas por telespectadores não são tão picotadas, e em alguns casos há até a versão completa. Em DVD seria impossível isso acontecer. Roque Santeiro, por exemplo, teve seus 209 capítulos resumidos em 16 discos. Algumas tramas, como o envolvimento do Padre Albano (Claudio Cavalcanti) e Tânia (Lidia Brondi) e a história de Lulu (Cássia Kiss) foram prejudicadas. A vantagem do original é a qualidade de som e imagem.

Se no Youtube, a emissora consegue controlar o que deseja, no restante da internet ela dificilmente impedirá a venda e a troca de telenovelas. São apaixonados pelo gênero que fazem de tudo para manter vivas suas tramas prediletas. Enquanto a emissora não sabe aproveitar o acervo que tem de forma adequada, os telespectadores tratam para que essas histórias estejam sempre disponíveis. E alguns até ganham um dinheiro com isso.

Desalinho

O que leva uma emissora a programar a estreia de um reality show para quase 11 horas da noite de sábado?  Os motivos são desconhecidos, mas o fato é que a Band escolheu para a exibição do Projeto Fashion o mais infeliz dos dias. Resultado: um ponto de audiência, atrás da Globo, Record, SBT e Rede TV!

Na televisão, a noite de sábado é morta. O número de aparelhos ligados costuma ser menor, e foram raras as ocasiões em que as redes apostaram em novidades nesse horário. Os programas exibidos apostam no público em geral, e Projeto Fashion, querendo ou não, tem foco em um segmento (amantes de moda, majoritariamente feminino), pelo menos em tese. Um dos problemas da escolha da Band é que o público feminino jovem, em sua grande parte, está fora de casa neste horário.

Deixando de lado este grave erro que só a Band parece não ter previsto, Projeto Fashion é bem produzido e conta com participantes interessantes, o que em um reality já é meio caminho andado. Adriane Galisteu, a apresentadora certa para este tipo de programa, estava meio engessada, e precisa usar seu jeito descolado a favor do reality. Com a exibição, ficará mais fácil para a direção fazer ajustes e encontrar uma cara brasileira para o formato importado, explorando com mais ênfase o lado humano dos participantes. Para que o público possa torcer e se envolver, ele precisa conhecer melhor quem são aquelas pessoas.

Está programada uma reprise da estreia para amanhã (terça, 20/09), às 20h45, que também não é um período ideal, mas melhor do que o dia original de exibição. Não será surpresa se a reprise conseguir mais audiência. Projeto Fashion tem problemas, mas merecia um público maior, principalmente se levarmos em conta seus concorrentes. Para a Band fica a lição de que, na TV, falta de estratégia e programação custam caro, e para alguns problemas apenas um visual bonitinho não é o suficiente.

O bloco dos desocupados

A novela Fina Estampa acabou de perder uma de suas personagens, a mística Dona Zilá (Rosa Marya Collyn). Houve muito choro, principalmente entre o pessoal do núcleo natureba, tristes com a partida de uma grande amiga. Para os telespectadores, porém, a saída dela não representa grande coisa. Dona Zilá se foi sem ao menos dizer a que veio. Apenas uma das personagens sem função aparente na trama de Aguinaldo Silva.

A novela ainda está no início, e toda história tem aqueles papéis que só se desenvolvem após um certo tempo, mas quem ainda não se perguntou pra que serve aquele núcleo da praia? Agora apareceu uma mulher para justificar o personagem de Eri Johnson. Ela vai tentar colocar o marido na linha, e só. Carlos Machado logo terá uma utilidade ao se envolver com as tramóias da vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni). O resto, por enquanto, está para fazer volume na areia.

Além da pobre Zilá, que nem a uma morte dramática teve direito, faz parte do núcleo da pousada o mágico Mandrake (Sandro Pedroso). Não há nada que explique a presença do ilusionista na trama e muito menos a escalação deste ator, ruim de doer. Incomoda também um intérprete do nível de Ricardo Blat fazer figuração no restaurante do Renê (Dalton Vigh). Um desperdício.

Aguinaldo Silva é conhecido por dar espaço a todos os atores de suas novelas, e Fina Estampa ainda tem tempo para que isso aconteça. Que o autor use esse tempo, e o fato de a telenovela ser uma obra aberta, para dar função a quem merece e eliminar aqueles personagens que nunca deveriam ter existido. Não era o caso da inútil, mas simpática, Dona Zilá.

Escolhas em Jogo

Há quase sete anos, a Rede Record fez renascer seu núcleo de dramaturgia com a estréia da novela A Escrava Isaura. De lá pra cá a emissora fez bons trabalhos, como Essas Mulheres, Vidas Opostas e Poder Paralelo, aqueceu o mercado de trabalho para profissionais da TV e proporcionou uma nova alternativa para a audiência, mas há algum tempo suas tramas estão estacionadas, resultado de uma série de decisões equivocadas.

O maior erro da Record foi a desnecessária parceria com a mexicana Televisa, de onde já saíram Bela, a feia, uma novela irregular e que descaracterizou totalmente a proposta original, e agora Rebelde, que embora seja bem feita, já nasceu menor que a versão mexicana, grande sucesso também no Brasil. Com a parceria, sobrou menos tempo para os autores da casa trabalharem suas ideias originais, o que acabou provocando a fuga de muitos deles, inclusive Tiago Santiago, novelista de maior sucesso da casa e um dos responsáveis pela implantação do núcleo.

Além de Rebelde, o canal tem hoje no ar Vidas em Jogo, de Cristianne Fridman, uma boa história, com ótimos atores e a direção sempre acertada de Alexandre Avancini, mas que não empolga em repercussão e nem em audiência. Após o sucesso de Prova de Amor, que levou Tiago Santiago ao posto de coordenador de dramaturgia, todas as novelas da Record passaram a apostar em violência, perseguições e tiroteios. Isso, e o pouco revezamento de diretores, faz com que as tramas fiquem muito parecidas estética e dramaturgicamente. Em Vidas em Jogo tem sempre alguém seqüestrando alguma pessoa.

A emissora já mostrou que sabe fazer bem feito e tem grandes profissionais entre seus contratados, mas precisa dar maior atenção para o núcleo, começar a pensar a longo prazo e a ser mais organizada. A trama de Cristianne Fridman já tem quase cinco meses no ar e sua substituta mal está em produção. Certamente Vidas em Jogo será mais uma novela esticada abusivamente. Riberão do Tempo chegou a ficar um ano no ar.

Por enquanto quem saiu ganhando foram os telespectadores, com mais opções, e a Rede Globo, que após algumas perdas passou a valorizar atores antes secundários e a apostar em autores que ainda não tinham tido a chance de mostrar seu talento. Está na hora da Record provar que ainda sabe jogar, reconhecendo erros e valorizando o que deu certo. E apesar da fase ruim, os acertos foram muitos.