Arquivo do mês: março 2012

BBB 12 termina com prestígio em baixa

Com a moral abalada desde o começo, com o caso do suposto estupro envolvendo Daniel e Monique, o Big Brother Brasil 12 termina com a final menos emocionante da história do programa. No BBB 7, que também teve uma vitória acachapante, com Alemão campeão com mais de 90% dos votos, ainda havia a expectativa do reencontro dele com sua “amada” Íris. A final que consagrou Fael  nem isso teve para se escorar. E dá-lhe resumos, clipes, charge… O mesmo de sempre, muito bem feito e editado, mas o mesmo de sempre. E com um show sonolento do Thiaguinho pra ajudar. O melhor do programa foi a retrospectiva das edições anteriores, o que mostra que o passado do reality é bem mais bonito que o seu presente.

Nada mais justo terminar torto o programa que começou cheio de desconfianças, com Daniel desaparecendo do mapa sem satisfação alguma da direção, uma total falta de respeito com o público. O participante só foi reaparecer agora, como se nada tivesse acontecido, com a eliminação de Monique e o arquivamento do processo. A gaúcha, que também deveria ter sido eliminada na época, saiu praticamente imaculada, com a ajudinha da edição e, não vamos negar, de sua própria espontaneidade.

Foi esse desprendimento que a livrou da rejeição que se abateu contra seus companheiros do quarto Selva, eliminados com altos índices por terem jogado errado. Os participantes não apenas combinaram votos, mas se acharam os donos do jogo e menosprezaram seus concorrentes. Foi aí que o grupo da Praia cresceu e ficou, quase inteiro, até o final. Esse ano o voto do telespectador foi totalmente diferente do ano passado, quando a piriguete humilhada Maria venceu pela história que viveu lá dentro. Na falta de uma trajetória mais concreta,  os telespectadores escolheram aquele com mais carisma e identificação popular.

Ao proteger seus concorrentes preferidos, o público acabou com a própria diversão. Deixou apenas um lado do jogo e encheu a casa de monotonia.  A reta final foi salva pelo descompasso de Fabiana, que acabou enterrando o carisma que já não tinha ao decepcionar aqueles que estavam do seu lado desde o início. Apesar dos pesares, é preciso reconhecer que a garota propaganda soube jogar dentro da casa e teve garra e sorte, coisa que faltou para muita gente ali dentro.

Outro destaque da fase final foi a passagem relâmpago da radiante espanhola Naomi, que deu um banho de alegria e energia em muitos concorrentes locais. Preocupado em selecionar tipos exóticos, Boninho tem se distanciado da realidade do grande público a cada seleção. Ele parece ter esquecido que foi dos participantes mais simples e espontâneos que saíram os melhores momentos da história do programa. Pedro Bial é outro que esteve fora de compasso. Visivelmente desanimado, o apresentador falou muita besteira nos discursos de eliminação, e fora deles também. As provas do líder  decepcionaram, cheias de erros e imprecisões, poderiam ter se inspirado nas disputas de A Fazenda, muito bem elaboradas.

Embora a audiência tenha sido praticamente a mesma do ano passado, o número de publicidade caiu 30%, o que mostra que o prestígio do programa está em declínio. Só quem tem muito o que comemorar é mesmo o cowboy Fael, vencedor com uma forcinha de Jonas, o responsável pela união do grupo quando eles mais precisaram. Com o fim do jogo, quem precisa agora se unir com seu grupo é o diretor Boninho. A equipe tem pouco mais de nove meses para corrigir os erros desta edição e voltar a empolgar o público que já não se sente mais tão em casa.

Avenida Brasil provoca tensão sem apelar para mistérios tolos

Quando foi anunciado que uma versão abrasileirada da música Kuduro seria tema da novela Avenida Brasil muita gente estranhou. E com razão. Com a novela no ar, ficou mais fácil entender o motivo da exótica escolha. Além de se aproximar do charme, ritmo que será abordado na trama, a música tem a batida da novela, e convida o telespectador a dançar.

Vindo do cinema, João Emanuel Carneiro construiu um dos melhores primeiros capítulos já exibidos. Sem se preocupar em ser didático ou perder tempo com apresentações, o autor entrou de cabeça na trama logo no início. A estréia foi tensa sem tentar criar mistérios desnecessários, esteve tudo muito claro, e isso foi o maior mérito da novela até agora. Nos primeiros momentos da história, mocinha e vilã já tiveram um embate forte, sem enrolação. Um gol de placa da nova novela das nove.

Com um elenco enxuto, Avenida Brasil vai apostar alto na trama principal, como aconteceu com A Favorita. Adriana Esteves mostrou rápido que tem tudo para se tornar a nova Flora, um papel que a atriz merecia há tempos. Tony Ramos também deu show como o Totó brasileiro, e Murilo Benício… Murilo Benício é um bom ator. O núcleo de Alexandre Borges, que parece ser o respiro da trama, ainda não empolgou, se é que isso vai acontecer em algum momento. O ator ainda está com o encosto de Jacques Leclair, e com alguns trejeitos do costureiro que interpretou em Tititi. Além disso, essa história de homem com três mulheres está mais manjada do que os personagens do Ailton Graça.

Falar da aposta da Globo na nova classe C já está ficando até repetitivo, mas em Avenida Brasil isso é escancarado. É o futebol, é a proliferação de tipos populares, com a grande maioria dos personagens no subúrbio e, principalmente, o clima da novela. Para encaixar com esse clima, está faltando uma cor à história. Pode ser uma estética da primeira fase, mas a fotografia está um pouco sombria e cansativa para ser usada durante os quase sete meses que a novela vai durar.  Apenas uma nota dissonante dentro de uma musica com um ritmo que tem tudo para empolgar.

 

BBB tem mais uma final antecipada

Com a terceira liderança seguida no Big Brother Brasil, Fabiana garantiu uma vaga no último dia do programa. Não podemos dizer final porque esta acontece entre Jonas e Fael. Integrante mais teatral entre os amigos da Praia, Fabiana misturou sorte e perspicácia, tornando-se, como bem disse Boninho no twitter, uma das melhores jogadoras de todos os BBB`s. Erros à parte, não dá para tirar o mérito da participante, que dramatizou quando quis, soube desestabilizar os colegas quando foi necessário e teve garra e coragem para buscar seu espaço. Foi justamente tudo o que faltou para Kelly, por exemplo, uma boa menina eliminada pela apatia. O fato é que a final desta edição chegou antes da hora, e isto não é novidade para o programa. Confira outras finais antecipadas:

BBB 2

Manoela venceu a prova do líder e antecipou o embate entre a aeromoça Cida e o cowboy Rodrigo. Uma das participantes mais engraçadas e exageradas do programa, Cida venceu muitos adversários, mas foi derrotada em um dos paredões mais suspeitos da história do BBB.

 BBB 3

A casa se uniu para separar o casal Dhomini e Sabrina, dois participantes bastante populares na época.  A japonesa foi eliminada e Dhomini soube aproveitar a situação, usando também sua natural irreverência. Na final, o goiano enfrentou Elane, menina pobre que surpreendeu e perdeu por décimos.

 BBB 7

Uma das edições mais comentadas, o BBB 7 teve a final revelada quando o casal Alemão e Siri foi ao paredão. O surfista continuou na casa e virou uma espécie de justiceiro, eliminando todos os que se juntaram para separá-lo de sua amada. Foi para a final com Carol e venceu com mais de 90% dos votos, o último dia menos disputado da história do programa.

 BBB 9

A patricinha Ana Carolina foi o alvo do lado B da casa durante quase todo o programa, indo ao paredão várias vezes. Ela sobreviveu até enfrentar Max, que formou um par muito duvidoso com Francine. Com 59%, Max eliminou Ana em um embate que o público só esperava ver no último dia.

Troféu Imprensa mostra que país necessita de premiação séria

Gabriel Braga Nunes (Leo, Insensato Coração) concorrendo ao prêmio de melhor ator de 2011 com Chay Suede (Tomás, Rebelde) e Caio Castro (Antenor, Fina Estampa). E nem sinal de Marcelo Serrado. Seria difícil de acreditar se alguém contasse, mas realmente aconteceu, e foi no Troféu Imprensa 2012, apresentado por Silvio Santos no SBT. É louvável o esforço do empresário em reconhecer os talentos do país, mas realmente não dá para levar a premiação a sério.

O Troféu Imprensa começa errando no júri. Pessoas com autoridade para votar, como José Armando Vannucci, dividem a bancada com figuras como Leão Lobo, que só está ali para tumultuar. Ele chegou a dizer que o autor Aguinaldo Silva é uma mentira. O novelista pode ter perdido a mão em Fina Estampa, mas é um dos melhores autores do país, com trabalhos memoráveis como Tieta, Pedra sobre Pedra, Fera Ferida e Senhora do Destino.

Ainda no prêmio, Roberto Carlos ganhou como melhor cantor mais uma vez, e deve ter umas três caixas de troféu para retirar lá no SBT. Roberto é, sim, um clássico nacional, mas ganhar como melhor cantor de 2011 é falta de discernimento. E por pouco Fina Estampa não vence Cordel Encantado como melhor novela do ano. O sistema de votação do programa, onde apenas três votos fazem um vencedor, é totalmente equivocado.

E não é apenas o Troféu Imprensa que erra a mão. Outro prêmio grande, o da revista Contigo!, também arrisca ao deixar a primeira fase nas mãos do público. Não que as pessoas não tenham condições de votar, mas falta um prêmio dado por críticos. A tendência do telespectador é premiar o personagem mais popular, que não necessariamente é o melhor interpretado. No Melhores do Ano, no Domingão do Faustão, em 2007, Taís Araújo (Ellen, Cobras & Lagartos) venceu Fernanda Montenegro (Bia, Belíssima) e Lilia Cabral (Marta, Páginas da Vida). Esse ano, entre as concorrentes a melhor atriz do Prêmio Contigo! está Paola Oliveira (Marina, Insensato Coração), e aí não é preciso nem comentar.

O prêmio da APCA, Associação Paulista de Críticos de Arte, é o que mais se aproxima do ideal, embora não tenha grande destaque. Pela qualidade de nossas produções e o talento de nossos atores, merecemos uma premiação que se torne referência nacional e tenha o tamanho de nossa televisão.

 

Fina Estampa cumpre missão mas deixa dívidas

Primeira novela a apostar escancaradamente na nova classe C, Fina Estampa pode ser analisada de dois modos: pensando ou simplesmente curtindo. Independente do ponto de vista, é preciso reconhecer que a produção teve seus méritos, e o principal deles foi cumprir suas funções básicas: entreter e garantir audiência para a emissora.

Olhando a novela de Aguinaldo Silva com boa vontade, vemos que a trama foi, no final das contas, uma grande brincadeira, na qual nem seus personagens se levavam a sério. Sem medo de ser feliz, o autor soltou a imaginação em diálogos inspirados e em tipos recorrentes em sua obra, como o afetado Crô (Marcelo Serrado), a heroína batalhadora Griselda (Lilia Cabral) e a vilã ensandecida Tereza Cristina (Christiane Torloni).

Diferente de novelas mornas como Passione e Insensato Coração, que só conseguiram repercussão de verdade em seus momentos finais, Fina Estampa foi popular o tempo inteiro. Sua audiência foi tão uniforme que não aumentou nos últimos capítulos, foi uma linha reta com boa média. Outro mérito da novela foi trazer uma mocinha que trabalhava e era determinada, o oposto das sonsas que vínhamos tendo que aguentar.

Entre os atores, é chover no molhado dizer que a novela foi de Marcelo Serrado, que emprestou um pouco de luz a todos que contracenavam diretamente com ele. Christiane Torloni começou over e foi acertando o passo ao longo da trama, e Lilia Cabral finalmente conquistou sua merecida protagonista, mas já teve papéis melhores. Agora que ela já chegou ao topo, pode voltar a ser a coadjuvante que rouba a cena nas novelas.

Agora vamos pensar um pouquinho… Fina Estampa foi uma novela que começou com o propósito de discutir aparência versus caráter e terminou como a história de uma louca que saía matando para esconder um segredo. No final da contas, o segredo, além de não ser nada demais, não era o verdadeiro. A reação dos personagens que foram descobriram o mistério mostrou-se totalmente fora de propósito. Outro grande comentário da novela foi a identidade do amante de Crô. Aguinaldo preferiu não revelar e se justificou com os telespectadores através do próprio personagem. Acontece que o segredo da caixa de Perpétua, em Tieta, foi sugerido o tempo inteiro e a intenção era essa.

O que mais incomodou na novela foi a quantidade de tramas que ficou sem aprofundamento. A luta pela menina Vitória é um exemplo, um tema que poderia ter sido mais polêmico, mas que foi mal desenvolvido e acabou não mexendo com o telespectador da forma que poderia.

A última cena de Fina Estampa rivaliza agora com a derradeira imagem de Kubanacan como um dos desfechos mais enigmáticos, e bizarros, da história. No fundo, uma brincadeira com a cara de Aguinaldo Silva e da novela que ele construiu. Não foi a sua melhor obra, não foi uma grande novela, mas foi uma produção que cumpriu muito bem o seu papel, um mérito que nem o talentoso Mandrake (Sandro Pedroso) é capaz de fazer sumir.

 

Louco por Elas traz qualidade com cheirinho de naftalina

Esperei mais um episódio de Louco por Elas ir ao ar para falar da série, e fiz bem. A segunda semana foi melhor que a primeira, e deu vontade de aguardar a próxima, coisa que a estréia não conseguiu.

Louco por Elas não inova nada no formato das séries exibidas pela Globo. Segue o antigo padrão americano, ainda em voga na maioria das comédias exibidas por lá, no qual cada episódio tem um determinado “tema”, que não é sequer lembrado na semana seguinte.  Embora já tenha passado da hora da emissora fazer outros testes como fez com A Cura, ainda não é na série de João Falcão que isto vai acontecer.

A história protagonizada por Eduardo Moscovis é interpretada por um elenco enxuto, e muito bem escalado, e o texto é dinâmico, cheio de referências, o que o aproxima do público. O primeiro episódio, que tentou fazer mais piadinhas do que o necessário, foi superado pelo segundo, que encontrou um equilíbrio maior e mostrou que situações podem ter mais graça do que piadas prontas.

Falar da qualidade dos trabalhos de João Falcão é chover no molhado. Tanto sua direção quanto texto são praticamente irrepreensíveis, e mereciam mesmo um espaço fixo na TV. Apesar de todas as qualidade, Louco por Elas tem algo dos anos noventa que eu não sei explicar bem o que, mas que ronda a produção. Talvez seja mesmo o formato, ou um ar de inocência, apesar de algumas abordagens. O certo é que é um produto de qualidade, que merece ser visto e deve crescer em audiência quando ganhar a companhia de Tapas & Beijos.

 Referência bem-vinda

No segundo episódio, quando a personagem de Glória Menezes vai até a boate, encontra um garoto interpretado por Arlindo Lopes, uma clara referência à peça Ensina-me a Viver, adaptada e dirigida por João Falcão e interpretada pelos dois atores. Uma das mais belas produções que eu já vi nos palcos, a peça enaltece o talento de Glória, que merecidamente ganhou vários prêmios, e nos mostra o grande trabalho de um ator pouco conhecido do público. Com tantas pessoas “mais ou menos” invadindo nossas produções, é de se espantar que Arlindo Lopes ainda não tenha encontrado seu espaço na televisão.

Os dois lados da edição do BBB

Há dez anos, o Big Brother chegou ao Brasil meio desconfortável, sem saber exatamente que caminho seguir. A sensação ficou ainda maior porque o reality da Globo veio logo depois da Casa dos Artistas, que fez enorme sucesso no SBT e conquistou o público com sua espontaneidade. O diretor Boninho só encontrou o tom do programa na segunda edição, quando o romance de Tyrso e Manuela inspirou uma novelinha que é usada como recurso até hoje. A forma como o programa é editado, considerada uma das melhores do mundo, se por um lado dá dinamismo, por outro cometeu muitas injustiças.

O programa aqui se aproxima de uma ficção, e já criou grandes edições com a luta do bem contra o mal (BBB 5, BBB 7 e, em um grau infinitamente menor, o atual BBB 12), com direito a mocinhos e vilões. A direção salvou também os piores anos do reality do fracasso e do tédio total (BBB 6 e BBB 8), e criou grandes personagens.

Por outro lado, como adota a prática de contar uma historinha, o programa já rotulou injustamente e queimou participantes sem necessidade, como na atual edição. Em um vídeo constrangedor, de tão escancaradamente tendencioso, a participante Kelly foi comparada a uma planta. Não que ela tenha muita utilidade no programa, mas a seleção foi feita por eles, e o erro está aí.

Um dos VT`s mais injustos foi exibido ainda na segunda edição, quando a aeromoça Cida, que vinha de uma trajetória ascendente dentro da casa, enfrentou o Cowboy Rodrigo, a planta daquele ano. Cida foi pintada como a mentora dos descompassos de Tina, famosa por seu panelaço, além de ter sido malhada em depoimentos dos ex-participantes; já Rodrigo ganhou uma edição com direito a música tema. Resultado: Cida foi eliminada no penúltimo paredão com 59% dos votos .

Equívocos a parte, é impossível não reconhecer a qualidade da versão brasileira do Big Brother como um todo, e pudemos conferir isso com as imagens da Espanha, que foram exibidas com a ida de Laisa pra lá. A forma como o programa é editado acaba sendo um mal necessário para fisgar o público. Ruim com ela, muito pior seria sem.

 

Público reprova fase dramática de Aquele Beijo

Aquele Beijo nunca foi uma novela de muitos acontecimentos. Como a sua audiência, as coisas sempre transcorreram sem grandes picos, no clima de uma comédia romântica. Foi sempre assim: uma trama com um ótimo texto e com uma dupla central encantadora… Até o autor Miguel Falabella precisar tirar Lucena da história por causa da gravidez da atriz Grazi Massafera. A saída da personagem, um dos pilares da trama principal, fez o autor perder a mão. E o público não ficou quieto.

Com a despedida de Lucena, a saída encontrada por Falabella foi fazer Vicente (Ricardo Pereira) ser baleado, ficar sem andar, e optar por se afastar de Cláudia (Giovanna Antonelli) para não ser um peso para ela. O que o autor esqueceu foi que, além de se distanciar do clima da novela até aqui, ninguém mais agüenta personagem de novela ficando em uma cadeira de rodas depois da Luciana (Alinne Moraes), de Viver a Vida, e do Pedro (Eriberto Leão), de Insensato Coração. Além disso, com a solução encontrada, Cláudia ficou mais sofrida e acabou afastando-se dos momentos cômicos, o grande charme da novela.

Resultado óbvio: o público não aprovou o rumo da história e a Globo pediu alterações para Falabella. Segundo a coluna Controla Remoto, de Patrícia Kogut, em O Globo, o autor inclusive reescreveu cenas já gravadas. Nos novos roteiros, Claudia e Vicente se reaproximam e ele começa a se recuperar. Há um mês do fim, o que não terá recuperação será a audiência da novela. Sem muita repercussão, mas seguindo até então uma linha própria e um clima leve de comedia romântica agradável para quem a assiste, é uma pena que a trama tenha saído da linha perto do final.

Ainda sobre Aquele Beijo…

Ótima atriz, Claudia Jimenez pegou em Aquele Beijo uma personagem que nem uma mandinga brava de Mãe Iara conseguiria fazer render. De tão inútil, a vidente poderia fazer parte da turma da pensão da Zambeze (Totia Meirelles), em Fina Estampa. A única ligação da charlatona com os demais personagens da trama é receber um outro de vem em quando para uma consulta espiritual, além de uma procuração deixada para a mãe dela e que lhe dá a posse do terreno da favela. Agora Mãe Iara entra em uma nova fase: atropelada por um ônibus dentro da própria casa, ela morre e passa a atormentar a vida das pessoas com suas gracinhas. Tudo o que Aquele Beijo não precisava a essa altura do campeonato era de um fantasminha camarada. Se Mãe Iara partisse de vez, não faria a menor falta.

Produções nacionais ainda escorregam na narração

A novela Aquele Beijo e a série As brasileiras têm uma coisa em comum, e não é apenas o humor. As duas produções fazem uso do narrador, recurso ainda pouco usado na teledramaturgia brasileira, e que serve para enriquecer a história que está sendo contada. Ou pelo menos deveria fazer isso. Nas séries americanas ele é explorado com maestria, como em Desperate Housewives, na qual a suicida Mary Alice conta a vida de suas vizinhas, ou em Pushing Daisies, uma produção linda que infelizmente não fez sucesso.

Miguel Falabella ousou ao utilizar a ferramenta pela primeira vez em uma novela. Ele acerta na maioria das inserções de Aquele Beijo, mas há casos em que a coisa desanda um pouquinho. O autor se sai melhor quando usa as próprias palavras para engrandecer uma cena inicialmente pequena, porém tem abusado das citações. Com o passar dos capítulos, cada vez mais as entradas do narrador citaram poetas, pensadores ou filósofos, o que deixa o recurso um pouco enjoativo, além de não ajudar a contar a história, e apenas lançar reflexões.

Em As Brasileiras o caso é um pouquinho mais grave. A narração cafajeste de Daniel Filho, que até era legal em As Cariocas, não está caindo tão bem desta vez. O texto tem apostado nos trocadilhos infames que, ao invés de enriquecer as tramas, ficam perto de causar constrangimento. Muitos comentários do narrador são extremamente desnecessários e na hora errada. É como aquela pessoa que sempre comenta o que não deve e acaba deixando um silêncio no ambiente.

Apesar de tudo, é válido experimentar, e nossas novelas já pediam uma novidade na forma de contar as histórias. Que o pontapé inicial dado por Miguel Falabella sirva para que, pontualmente, outros autores possam utilizar o recurso. E mais: que a narração seja aprimorada, para que possamos chegar no nível das utilizadas nas produções americanas. Como dizem por aí, menos é mais. Será que falei muito?

Fotografia rouba a cena em Amor Eterno Amor

Geralmente eu gosto de esperar alguns dias antes de falar de uma novela nova. O primeiro capítulo, embora dê pistas sobre o clima que a história terá, é insuficiente para determinar a qualidade de toda a obra, até porque ele costuma ser bem caprichado. Algumas vezes, mesmo dando nossas impressões alguns dias depois, mudamos de ideia com o passar do tempo. Está aí Fina Estampa que não me deixa mentir. Elogiei a novela em sua estreia, e hoje não aguento assistir um capítulo inteiro. Entrei neste assunto para falar de Amor Eterno Amor, uma novela com embalagem belíssima, mas com um conteúdo que ainda não disse a que veio.

Com elementos de Eterna Magia e Escrito nas Estrelas, tramas anteriores de Elizabeth Jhin, a novela tem também pitadas de Araguaia, em uma mistura que só Deus sabe no que vai dar. O que podemos falar por enquanto é que a autora domina bem seus folhetins, cria bons diálogos, e a história só vai desandar se algo muito grave acontecer. Vai ser, no mínimo, uma novela bonitinha, como foi Escrito nas Estrelas.

O grande destaque até agora não foi Gabriel Braga Nunes, embora ele esteja bem e tenha conseguido se distanciar do Leo de Insensato Coração, mas a qualidade das imagens da novela. O que foi mostrado até agora tem uma das melhores fotografias já vistas na TV, e proporcionou ao público belos momentos. Por instantes, algumas passagens do primeiro capítulo não ficaram devendo nada aos melhores filmes americanos. Um capricho que merece ser reconhecido.

Entre os atores, ainda não consegui ver nenhum destaque. Cássia Kiss, depois de se consagrar como a Dulce de Morde & Assopra, voltou a representar o tipo de personagem que já vez várias vezes em sua carreia, e Klara Castanho está se especializando em tipos estranhos e meio irritantes. O núcleo pobre/cômico é meio suspeito, mas conta com bons atores e pode engrenar.

Por enquanto é isso: Amor Eterno Amor é um produto com uma embalagem linda, mas com conteúdo indefinido. A trama está um pouquinho parada para uma primeira semana, e quase chegou a me dar o sono que tive quando vi a abertura pela primeira vez. É uma gracinha, mas esquecível e funciona como um bom calmante. Agora é só torcer para que o conteúdo ultrapasse a beleza da embalagem, e a novela tem tudo para que isso aconteça.