Arquivo do mês: abril 2012

Emissoras cometem erros estratégicos e perdem pontos importantes

Cada vez mais próximas umas das outras na briga por audiência, Record, SBT e Band pecam por não pensarem na programação como um todo e apresentarem buracos em faixas importantes. Erros básicos que prejudicam os programas subsequentes e atrapalham a média geral do dia.

A Record, que já esteve em melhor situação, também já teve uma programação mais elaborada. O horário vespertino, que contou com programas de qualidade, como o Tudo a Ver com Isabella Fiorentino e Paulo Henrique Amorim, hoje apresenta um arremedo da atração, que nada mais é do que a reprise de um monte de coisas já apresentadas na emissora. O programa é seguido por Todo Mundo Odeia o Chris, o Chaves da Record, que tem hora pra começar, mas nunca sabemos quando vai acabar. Na programação noturna, o maior erro do canal: a reprise de Vidas Opostas. Colocar uma novela antiga no horário nobre é sinal de que as coisas não estão nada boas. A ótima novela de Marcílio Moraes tem entregado o horário com audiência baixa para a já difícil Máscaras.

No SBT, a parte da tarde também deixa muito a desejar. Começa com enlatados repetidos à exaustão e segue com a reprise de três novelas, geralmente uma mexicana e duas produções próprias. Como não tem muita coisa boa para escolher, as reprises já chegaram em um ponto em que qualquer coisa está valendo. Faltou ao SBT lançar novidades neste mês, onde praticamente todos os canais surgiram com novas propostas.

Na Band, emissora que tem feito investimentos importantes, o maior erro estratégico é vender quase uma hora do horário nobre a um programa religioso. Tudo o que vem depois pega com a audiência com traço e precisa conquistar todo um público. Por dinheiro, a emissora acaba perdendo décimos importantes para a média diária. De manhã, o Dia Dia, com Daniel Bork é um programa tão mal divulgado, que muita gente não sabe que existe. Mas nada que se compare à insistência da RedeTV! com o matinal Manhã Maior, um programa que nunca engrenou, e seus únicos momentos de fama foram graças às gafes de Daniela Albuquerque, apresentadora e mulher do dono. Antes esse fosse o maior dos equívocos da emissora, que perdeu seu principal produto (Pânico) por não respeitar seus artistas, e ainda está desgastando um programa que tem boa audiência, o Mega Senha, com uma reprise sem sentido aos domingos.

E pra não dizer que a Globo é feita de acertos, basta lembrar do Bem Estar,  que já nasceu sem propósito, visto que vem depois da Ana Maria Braga, que já falou sobre tudo o que hoje ele aborda. Com audiência fraca, a atração parece ter esgotado de vez os assuntos. Na semana passada, chegou a ensinar os telespectadores a dançarem o kuduro. Isso sem fazer maiores comentários sobre a desnecessária re-reprise de Chocolate com Pimenta e os filmes de sempre da Sessão da Tarde.

Ninguém espera perfeição da programação de emissora nenhuma, até porque gosto é variável e as opiniões se divergem, mas o mínimo de cuidado é essencial. Em tempos em que cada ponto de audiência é valioso, não dá para brincar em serviço.

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Cheias de Charme traz breguice moderna e agrada

Após as novelas das nove reconhecerem o poder da tão falada nova classe C, com Fina Estampa e Avenida Brasil, chegou a vez do horário das sete se render ao popular. E Cheias de Charme é o ápice desse movimento. Passando pela escolha das empregadas domésticas como protagonistas, a trilha sonora e a maioria das locações, tudo na trama é feito para fisgar esse público. A novela, porém, vai além disso e consegue atingir todas as faixas.

Com edição dinâmica, fotografia colorida e direção ágil, Cheias de Charme tem um ar moderno que muitas tramas tentam, mas não conseguem ter. Outra qualidade da história é ser assumidamente brega e popular. A trama escancara  essa identidade e usa isso para agradar tanto as crianças quanto os adultos que estão buscando entretenimento sem grandes compromissos.

O trio de protagonistas mostrou harmonia desde a primeira cena e a novela é uma grande chance para Taís Araújo tirar da mente do público a insossa Helena , de Viver a Vida. Só em suas primeiras cenas, ela já deu sinais de que será uma tarefa muito fácil. Leandra Leal tem em mãos a oportunidade que merecia há algum tempo e Isabelle Drummond nunca deixou dúvidas, desde a Emília do Sítio do Pipa Pau Amarelo, de que teria um futuro promissor, embora ninguém esperasse que ele fosse chegar tão rápido.

A novela não poderia ter uma vilã melhor. Claudia Abreu, que estava fazendo falta na telinha, sempre deixou clara a sua vontade de fazer papéis mais leves, e ela pode, e deve, se soltar ainda mais como Chayene. Titina Medeiros, elogiada nos bastidores antes mesmo da estreia, veio para roubar a cena e mostrar que tem muita gente boa nos teatros do Brasil inteiro. Destaque também para Malu Galli, uma atriz sempre agradável de ser vista.

Cheias de Charme tem tudo para cair no gosto do público. Além da realização competente, tem diálogos afiados e referências atuais, o que mostra que a Globo acertou ao apostar em Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. A novela traz todos os elementos da dramaturgia tradicional com o ritmo e a cara do tecnobrega, uma mistura inédita que vai dar samba.

Globo abusa das animações em suas aberturas

Com a estreia de Cheias de Charme, a Rede Globo, mais uma vez, nos brindou com uma belíssima abertura. Colorida como a novela, a vinheta é muito bem realizada e só peca quando olhamos a programação como um todo. A emissora tem exagerado no uso de animações, principalmente nas séries. Embora as técnicas sejam diferentes, é impossível não notar o abuso.

Atualmente, além da trama das 19 horas, temos animações nas aberturas de Amor Eterno Amor, Louco por Elas, A Grande Família e Casseta & Planeta Vai Fundo, entre outros programas. Todas muito bem feitas, mas não custa nada variar um pouquinho.

Confira algumas vinhetas animadas:

Máscaras leva nome a sério e esconde mais do que deveria do público

Na semana passada, a Record colocou no ar uma das tramas mais instigantes, no bom e no mau sentido, que já exibiu. Máscaras é uma novela profundamente psicológica, como o grande público jamais encarou, e o maior desafio de Lauro César Muniz, um autor que nunca foi fácil, mas que agora está quebrando o convencionalismo um pouco mais do que o necessário.

A novela não é ruim, sua autoria impede qualquer coisa perto disso, nas não há como negar que é uma trama, no mínimo, estranha. Máscaras tem tanto mistério, tanta gente escondendo tudo o tempo todo, que o público não consegue se agarrar a um personagem. Não consegue torcer e nem ter raiva de ninguém. O telespectador fica tão perdido quanto alguns atores, que não sabem para onde levar a interpretação.

O climão de hospício da trama é potencializado pela iluminação capenga, os cenários com cara de novela dos anos 80 e a direção sem personalidade de Ignácio Coqueiro. Tudo isso deixando a novela com cara de que não pertence a esta época, mas que também não pertence a lugar nenhum. Pode ser proposital, mas incomoda.

Fica complicado falar sobre o trabalho de qualquer ator, já que não sabemos as reais intenções de praticamente nenhum personagem. Mas já dá para destacar Bete Coelho e sua espirituosa Valéria. Pena a personagem fazer parte de um dos núcleos mais bizarros da teledramaturgia. Tem uma pseudocantora prestes a morrer, uma sensitiva, uma piriguete, entre outros tipos que gostam de dançar de lingerie. Um núcleo que me lembra muito “Brida”, aquela novela que a falecida Manchete nunca deveria ter produzido. Sempre que o núcleo aparece, vejo as personagens vestidas de bruxa correnda em algum campo da Irlanda. A atriz Daniella Galli, em seu maior papel na TV , é uma figura para ser observada com atenção.

Máscaras tem, até o momento, audiência menor do que suas antecessoras, um fato que era bem previsível. Não é uma trama fácil de digerir, ainda mais para o público do horário, que foi formado com explosões, sequestros e muitos tiroteios. Quem tiver disposição para encarar essa misteriosa história e entrar no clima “diferente” que ela tem, vai acabar se envolvendo, mais por curiosidade do que por afinidade com algum personagem. Nunca uma novela fez tanto jus ao seu nome. Caso deixe a máscara cair, Lauro César Muniz pode revelar uma bela obra.

Aquele Beijo chega ao fim como uma das maiores comédias românticas já vistas

Chegou ao fim mais uma trama com a assinatura de Miguel Falabella. E essa frase não poderia ser mais literal, já que o nome do autor realmente encerrou a história. Nada mais justo. Aquele Beijo foi uma novela com a cara de Falabella: tanto por situações inusitadas, que divertem o telespectador, e por seu texto irretocável, quanto por seus personagens exóticos, que causam estranhamento em certa parte do público.

A novela nunca foi de picos, nem de audiência e nem no andamento de suas tramas, e neste sentido foi coerente do primeiro ao último capítulo. Por meio de uma comédia romântica leve e despretensiosa, o autor construiu um romance que teve a velocidade de uma brisa, o que pode ter sido o motivo da frieza dos telespectadores, acostumados com grandes movimentações.

Giovanna Antonelli criou uma Cláudia inesquecível, uma mulher comum, que todos nós adoraríamos conhecer. A atriz, que já tinha mostrado essa veia em Três Irmãs, provou de vez que é uma espécie de Júlia Roberts brasileira. Sua química com Ricardo Pereira foi de acalentar os corações apaixonados, nada explosivo, mas um romance inocente como há muito não se via. A música “Exato Momento”, de Zé Ricardo, contribuiu para o clima pretendido. E alcançado com louvor. Sua trama principal foi umas das maiores comédias românticas já vistas em novelas, talvez apenas Perdidos de Amor, da Band, ganhe neste quesito

Aquele Beijo foi de grandes atuações, de atores que teriam ganhado mais atenção da mídia caso fosse uma trama das 21 horas. Marília Pêra é Marília Pêra, eficiente tanto em mulheres esnobes como em tipos populares. Sua Maruska foi duas, e sua interpretação o maior motivo para o público ter engolido a mudança repentina da personagem. Leilah Moreno demonstrou grande amadurecimento desde Antônia, e Luiz Salém construiu uma Ana Girafa tão sensível que era impossível negar que dentro daquele corpo existia uma alma feminina. Foi uma cena da personagem com sua mãe o grande destaque do último capítulo.

A cena final foi uma brincadeira no estilo Bollywood e contou com a presença de mais um protagonista da novela: Miguel Falabella. Com suas narrações, o autor marcou a trama de forma especial. Embora tenha abusado das citações, é indiscutível que suas interferências deram um charme à história.  Aquele Beijo não foi um grande sucesso de público, mas as qualidades do texto, da direção e das interpretações estiveram estampadas em cada capítulo da novela.

 “A história surge a partir de minhas observações. Eu gosto de criar personagens que são politicamente incorretos porque existe verdade no que eles dizem. Eu trabalho com o universo do subúrbio carioca, vejo o mundo e ouço pessoas falando. A graça da vida é isso, é a diferença entre as pessoas”, Miguel Falabella.

Abertura de Máscaras bate recorde de mau gosto

A novela Máscaras é tão complexa que é impossível fazer uma analise só com um capítulo. Ainda não consegui digerir tudo aquilo, mas já temos o destaque da estreia: a abertura. Tudo bem que essas vinhetas não são o forte da Record, mas a de Máscaras se superou. Com 40 segundos,  é uma das coisas mais pobres já vistas na televisão. A música do Fagner não ajuda, mas qualquer canção  ficaria fora de compasso com aquilo. O bom é que os fãs de aberturas poderão reproduzir esta em casa. Basta estender um lençol branco no chão, espalhar umas máscaras nele e passear com a câmera. Não é preciso nem comentar a quantidade de créditos que aparecem ao mesmo tempo, o que impede o telespectador de ler o nome de todos os atores. É difícil saber se isso é resultado de preguiça ou da falta de gosto mesmo.

Quem não viu a “arte” pode conferir logo no início do vídeo:

 

Final de Vidas em Jogo exige paciência e criatividade do telespectador

Após quase um ano no ar, finalmente Vidas em Jogo chegou ao fim. Não que a novela fosse ruim, longe disso, mas é que nenhuma trama chega ao final intacta após durar tanto tempo. É isso, somado ao horário instável das produções da Record, que faz com que uma novela de qualidade como a de Cristianne Fridman não alcance todo o sucesso merecido.

Vidas em Jogo começou com uma proposta interessante, se perdeu em algumas tramas, mas tomou bons caminhos em outras. A autora fugiu do maniqueísmo e foi além: Rita (Julianne Trevisol), inicialmente a mocinha, terminou presa por sequestrar e mandar matar, já a aprendiz de megera Patrícia (Thaís Fersoza), chegou ao final regenerada.  Uma super bola dentro da autora, que soube encaminhar muito bem essa e outras mudanças.

Beth Goulart brilhou como a vilã Regina, em um papel que jamais teve a oportunidade de interpretar na Globo.  É esse, aliás, um dos maiores méritos das produções da Record: dar a oportunidade para atores pouco valorizados na emissora carioca. Falar de Vidas em Jogo e não citar a Augusta, de Denise Del Vecchio, é impossível. O mistério criado em torno da personagem, junto com a  sensibilidade da interpretação da atriz, foi um dos pontos altos da novela. Destaque também para o menino Rick Tavares, intérprete de Wellington, que deve parar na Globo em breve, caso a Record não abra o olho.

O último capítulo foi, perdão pelo trocadilho, uma palhaçada com o público, a começar pelo tempo. A exibição terminou depois da meia noite, e foi preciso muita criatividade para digerir o final surpreendente criado pela autora. Tudo bem que a mensagem foi muito bonita, que foi ótimo ver o pessoal do bolão todo junto e a solução foi diferente de tudo o que já foi exibido, mas haja planejamento para mandarem fazer até uma máscara da Augusta para colocar no caixão. Nem Carlos (André Di Mauro) fumado, antes de sua morte estúpida e desnecessária, conseguiria ter viajado tanto.

Não são os furos do último capítulo que vão macular os méritos de Vidas em Jogo. Pelo texto de qualidade de Cristianne, a excelente interpretação da maioria dos atores e a direção sempre competente de Alexandre Avancini, a produção entra para a galeria das grades (nos dois sentidos) novelas da Record. Do último capítulo fica a belíssima homenagem a Betty Lago, e não havia ninguém mais apropriado para dizer aquelas palavras do que ela, que passa por um problema delicado de saúde. Apesar de ter faltado amizade e sobrado sequestro e perseguições durante os 243 capítulos, o saldo final é positivo. Quem conseguiu permanecer de olhos abertos até altas horas, há de concordar.