Arquivo do mês: setembro 2012

Hebe realiza sonho da imortalidade

Ela sempre dispensou apresentações. Falar em Hebe Camargo é falar na TV brasileira, veículo do qual ela fez parte desde o primeiro dia, ou segundo, já que faltou à cerimônia de inauguração por causa de uma paixão. Hebe foi sempre assim: espontânea, sem fazer gênero e sem papas na língua, e com isso chegava a todos os públicos. Com sua energia e alegria de viver, parecia não ter idade. E parecia também que ia durar para sempre. Fisicamente, não foi possível.

Podia ter feito o gênero senhora, mas sempre falou e fez o que quis, e nunca espantou anunciantes por isso, pelo contrário. Foi muito amada e respeitada justamente por sua honestidade com o público e pelo carinho que demonstrava por seus convidados e pela classe artística no geral. Dificilmente um convidado não se sentia à vontade em seus programas, que eram gostosos de serem vistos pela naturalidade que ela transmitia.

A importância de Hebe Camargo para a TV foi sempre tão clara que ela nunca foi tratada como concorrente por nenhuma outra emissora. Ela tinha trânsito livre por todas as redes, inclusive recebendo constantemente um tratamento muito carinhoso da Rede Globo. Esteve nos últimos anos na RedeTV!, mas morreu em casa: na quinta, tinha assinado um contrato para retornar ao SBT.

Há alguns meses, a apresentadora, que não respondia mais ao tratamento quimioterápico, realizava terapias paliativas, mas não divulgava sua real situação e sempre aparecia com um sorriso no rosto. É essa imagem positiva que vai deixar. Pelo tamanho de sua importância para a televisão e pela história que construiu, Hebe será sempre lembrada como a maior apresentadora do país. Nunca, em nenhum texto sobre a história da TV, há de faltar o nome de Hebe Camargo. E, com isso, morre fisicamente realizando o sonho de muitos: ser imortal.

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Cheias de Charme fez de pequena trama uma grande novela

Escrita por dois iniciantes na carreira solo, Cheias de Charme começou sem muitas pretensões, nunca foi tratada como uma superprodução com grande elenco, e chegou ao fim como uma das novelas mais autênticas do horário. Os autores Felipe Miguez e Izabel de Oliveira conseguiram, com um fiapo de trama, valorizar essa simples história e conquistar todas as faixas etárias.

Cheias de Charme alcançou aquilo que toda novela almeja: popularizou termos e expressões, fez personagens serem amados e repercutiu sua trilha sonora no país inteiro. Fora uma ou outra exceção, teve espaço para praticamente todo o elenco. Taís Araújo conseguiu fazer o público esquecer sua fraca Helena (Viver a Vida), Ricardo Tozzi reafirmou que tem um grande futuro na TV, Cláudia Abreu brilhou na comédia e Titina Medeiros mostrou que tem muita gente boa escondida por esse Brasil.

De nada adiantaria o texto afinado se a direção não tivesse conseguido traduzir tão bem o clima que a história pedia. A fotografia colorida e o cenário sem medo de ser cafona, quando era necessário, casaram com a trama solar que foi apresentada. A equipe de Denise Saraceni soube arriscar, usou diversas referências e tornou Cheias de Charme ainda mais leve e divertida.

Para a emissora, vai o mérito de ter feito a história ter a duração certa. Apesar de todo o êxito, foi uma novela concebida para ser um pouquinho menor, e chegou ao fim com 143 capítulos. A trama, e consequentemente  sua repercussão, já estavam perdendo o gás. Mas foram tantos os acertos, que é difícil não pensar na novela como um êxito completo. Cheias de Charme foi descaradamente novela, nunca tentou imitar cinema ou fazer o gênero, e talvez por isso tenha tocado tanto os telespectadores. Terminou do jeito que foi do início ao fim: uma grande festa.

Confira as parcerias de Manoel Carlos e Lilia Cabral na TV

Reservada para Saramandaia, a atriz Lilia Cabral está nos planos do autor Manoel Carlos para sua última novela às 21 horas. Lilia teve os melhores papéis de sua carreira, até agora, pelas mãos do novelista, que não esconde que tem a interprete entre suas atrizes preferidas. Confira os trabalhos realizados por Lilia e Maneco, sempre com muito sucesso:

História de Amor (1995)

Vinda do sucesso de sua personagem em Pátria Minha, Lilia Cabral foi escalada por Paulo Ubiratan para o papel mais desafiador de sua carreira até então. A médica Sheila, pra mim sua melhor personagem na TV até hoje, era noiva de Carlos (José Mayer) e eternamente apaixonada por ele. Ela nutria um ódio especial por Paula (Carolina Ferraz) e se aproximou de Helena (Regina Duarte) para tentar separá-la de seu grande amor, mas acabou se simpatizando com a protagonista. Sheila foi ficando cada vez mais solitária e enlouquecendo aos poucos, o que rendeu cenas memoráveis.

 

Laços de Família (2001)

Nesta novela, Lilia interpreta Ingrid, mãe da peste Íris (Deborah Secco). Casada com um homem mais velho, ela vivia em uma fazenda no Rio Grande do Sul . É a personagem mais contida de Lilia da TV. Com o rumo tomado pela história, e para que a atriz pudesse protagonizar o filme A Partilha, Manoel Carlos resolveu matar a personagem. A atriz teve poucas cenas na novela, mas a maioria delas foi muito significativa.

 

Páginas da Vida (2006)

Aqui, a atriz interpreta a vilã Marta, papel que a fez entrar definitivamente para o time de ouro da emissora e a tornou mais popular. Junto com Marcos Caruso, ela foi a grande atração da novela, recebendo até uma indicação ao Emmy.

Viver a Vida (2009)

Mais uma vez fazendo par com José Mayer, a personagem de Lilia foi criada para ser o contraponto da Helena de Taís Araújo. Com a criticada interpretação da protagonista, a personagem de Lilia acabou ganhando a simpatia do público e se tornou uma espécie de “Helena por consideração”.

Manoel Carlos começa a desenhar sua última novela das 21 horas

É praticamente certo que após Walcyr Carrasco e sua estreia às 21 horas, Manoel Carlos volte para sua última trama no horário. O novelista ingressou no time principal de autores da Globo após o sucesso de História de Amor (1995). Depois vieram Por Amor (1998), Laços de Família (2001), Mulheres Apaixonadas (2003), Páginas da Vida (2006) e Viver a Vida (2009). Com grande sucesso e repercussão, principalmente em suas novelas que fizeram parte do núcleo Ricardo Waddington, Maneco criou um estilo inconfundível.

Uma de suas maiores marcas é sua protagonista, que sempre se chama Helena. Já interpretaram a famosa personagem Lilian Lemmertz, Maitê Proença, Regina Duarte, Vera Fisher, Christiane Torloni e Taís Araújo. Quem vai encerrar o ciclo é Júlia Lemmertz, filha da atriz que interpretou a primeira Helena, em Baila Comigo (1981). Após a última novela, o desejo de Manoel Carlos é se dedicar a minisséries ou até às novelas das 23 horas. Uma de seus projetos é o de reescrever A Sucessora, que fez sucesso às 18 horas em  1978.

Para encerrar sua história de sucesso às 21 horas, Manoel Carlos deve apresentar uma Helena mais popular, mas sem se distanciar muito de seu estilo. Ainda não é certo que a direção seja de Jayme Monjardim. Pelo autor, a parceria se mantém, mas ainda é preciso o aval da emissora, que se for inteligente, nega. Como tem um texto que investe muito, e investe bem, nos diálogos, coisa que faz falta em muitas novelas atuais, o autor precisa de um diretor mais ágil, que levante suas tramas. Com Monjardim, suas novelas ganharam uma marcha lenta. Páginas da Vida começou bem, mas depois se arrastou (também pelo altíssimo número de personagens) e Viver a Vida foi quase parando do início ao fim.

Quando voltar com sua última novela, provavelmente em janeiro de 2014, Maneco pretende trazer de volta aquela que mais vezes deixou o caminho de suas Helenas mais complicado: Lilia Cabral. É difícil chamar suas personagens de vilãs, outra característica do autor é dar vida a pessoas críveis, mesmo quando elas cometem as piores maldades. Reservada para Saramandaia, novela das 23 horas do ano que vem, Lilia ou vai emendar um trabalho no outro, com poucos dias de intervalo entre as gravações, ou terá que optar por uma das produções. A decisão final deve ficar mesmo nas mãos da Globo. Grata pelas oportunidades que lhe foram dadas pelo autor (veja no próximo post as parcerias dos dois), a atriz, sempre que pode, reconhece a importância de Maneco em sua carreira.

Uma das ideias que Manoel Carlos chegou a cogitar é a de reunir todas as atrizes que já interpretaram suas Helenas, mas o próprio descartou por achar que seria praticamente impossível juntá-las em uma mesma novela. Elas devem, então, fazer participações especiais ao longo da trama. Por sua contribuição à teledramaturgia, pela qualidade de seu texto e pelo universo único que construiu, Manoel Carlos merece fechar a carreira com chave de ouro, ao som de bossa nova e com os conflitos humanos que só ele sabe construir.

Maior qualidade de The Voice é trazer opção para tardes de domingo

As primeiras chamadas do The Voice Brasil com seus jurados foram de deixar os telespectadores com vergonha alheia. Assistindo as imagens, a impressão era de que boa coisa não ia sair dali. Após o primeiro programa, é possível dizer que o resultado foi acima de esperado, principalmente porque acabamos não aguardando muita coisa.

Além de trazer uma luz para as repetitivas tardes de domingo, o The Voice trouxe para o Brasil uma nova dinâmica para os batidos programas de calouros. Está aí a repercussão zero de Ídolos para provar que esse tipo de programa merecia uma sacudida. O programa conta também com a caprichada produção da Globo, que ajuda muito nessa hora.

Os jurados ainda precisam percorrer um longo caminho para fazer alguma diferença na atração. Daniel, Claudia Leitte, Lulu Santos e Carlinhos Brown não chegaram a ser um desastre, mas se mostram pouco à vontade, pouco entrosados e pouco dispostos a dizer coisas realmente relevantes para os candidatos. Um jurado marcante faz muita falta para esse tipo de programa. Tiago Leifert fez uma figuração e, escrevendo esse texto, eu quase esqueço que ele faz parte do The Voice.

Vale destacar o ecletismo dos concorrentes, que foram do reggae ao sertanejo, passando por um candidato índio e por uma americana, o que deu um tom especial ao programa. Não chegou a empolgar, mas, para quem está acostumado a ter que aturar os programas de domingo, soa como um pequeno alento.

Programa da tarde completa duas semanas cada vez mais parecido com concorrentes

A Record lançou o Programa da Tarde com a esperança de tirar a vice-liderança das mãos do SBT e suas reprises de novelas, algumas pela terceira vez, e para isso lhe deu status  de grande produção. A atração recebeu um bom investimento e o comando de Ana Hickmann e Britto Junior, considerados pratas da casa. Duas semanas após a estreia, além de ter perdido aproximadamente 50% da audiência conquistada no primeiro dia, o programa está cada vez mais parecido com qualquer outro do horário.

A atração tem, sim, um acabamento melhor e algumas atrações que são mais  usadas nos programas das manhãs, mas no geral vemos os velhos debates rasos, acontecimentos estranhos, celebridades de segunda categoria abrindo o coração e agora até casos policiais. Essa semana, após um dos dias mais críticos em audiência, Marcelo Rezende fez uma participação especial para balançar o programa.

Ana Hickmann é esforçada e está cada vez mais natural como apresentadora, já Britto Junior é um caso complicado. Sem carisma, o apresentador se enrola com as palavras e se repete na maioria das vezes em que tenta opinar sobre um assunto. Pelo menos, ele se sai melhor do que em A Fazenda, onde ele parece sempre estar mais engessado. Juntos, eles ficam na média e não comprometem a atração. Esta se compromete sozinha, pela falta de foco e por tentar se mostrar diferente, sendo, no fundo, cada vez mais igual às demais.

Cheias de Charme bate todos os recordes de participações especiais

Nunca na história da teledramaturgia desse país uma novela contou com tantas participações especiais de cantores e apresentadores como Cheias de Charme. Provavelmente a conta já foi perdida, mas não é preciso números para concluir  que a novela usou e abusou da interação com programas da casa e artistas das mais diversas vertentes.

De Xuxa a Ana Maria Braga, de Preta Gil a Zezé di Camargo e Luciano, de participações que fizeram a história andar a visitas dispensáveis, Cheias de Charme teve parte considerável de sua dramaturgia dedicada a esses pequenos eventos. Um mundo que tem tudo a ver com a trama, obviamente, mas que quase passou do ponto.

Faustão, que já esteve em várias novelas globais, bateu todos os recordes com a novela. Ele já caminha para a sua terceira participação. Agora é Sandro (Marcos Palmeira) que vai parar no programa, no quadro “Se vira nos 30”. Dispensável.

O excesso de participações não diminui os acertos da novela, que é solar, leve e divertida, e foi assim do início ao fim. A única coisa que não acompanhou a trama até o último capítulo foi o fôlego inicial, tanto de repercussão como de aproveitamento de personagens como Chayene (Cláudia Abreu), que ficou mais apagada na reta final. Um problema que a cantora brega poderia discutir no progama de Fátima Bernardes.

Em tempo… Sucesso, principalmente entre as crianças, as músicas das empreguetes parece que não ganharam o cuidado merecido dentro da emissora. A poucos dias do final da história, um CD com as canções de Cida, Rosário, Penha, Fabian e Chayene ainda não viu a luz no sol. Com a atitude, a emissora, além de deixar de lucrar, perdeu um link importante que só valorizaria ainda mais o universo da novela e a trama como um todo.