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A dura missão de Salve Jorge

Salve Jorge, a nova novela das nove, talvez seja a produção que mais carmas carrega mesmo antes de ter começado. A trama estreou no primeiro dia útil do horário de verão, na última semana de propaganda política obrigatória nas maiores cidades do país, e, o pior de tudo, logo depois de um dos maiores fenômenos de repercussão dos últimos tempos. Ou seja: além de enfrentar complicadores que já fazem a audiência cair naturalmente, Salve Jorge ainda tem a dura missão de conquistar os órfãos de Avenida Brasil.

A trama de Gloria Perez é quase o oposto da novela de João Emanuel Carneiro: enquanto ele tirou o foco dos casais românticos e fez uma novela com cara de filme, ela historicamente aposta forte em seus pares centrais e é a mais folhetinesca de nossos autores. Discípula de Janete Clair, Glória sabe estruturar uma novela como ninguém, embora nas últimas tramas tenha caído na armadilha de criar pontos de apoio que levam suas novelas a, mais do que terem sua marca, ficarem com uma cara muito parecida, o que também causa preconceito em certa parcela do público.

Ainda é cedo pra comentar a novela propriamente dita, mas ela revelou-se cheia de boas possibilidades em sua estreia. O público deve estranhar o texto mais didático e ainda demorar algum tempo para tirar o luto por Avenida Brasil, mas dificilmente Glória Perez não consegue reverter problemas com suas produções. A autora é mestre em ir conquistando o público aos poucos com suas tramas, e as chances de conseguir isso novamente são grandes.

 

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Avenida Brasil termina com repercussão recorde

 

Com uma trama bem amarrada, aliada a uma direção que valorizou a história em cada take, Avenida Brasil conquistou uma repercussão que há muito tempo não se via. Fina Estampa, com alguns décimos de audiência a mais que a trama de João Emanuel Carneiro, passou longe do que a novela atual conseguiu: aliar sucesso de público e crítica, levando todos a comentarem os acontecimentos da história no dia seguinte. O último capítulo, que será exibido amanhã, é aguardado com ansiedade e repercute de várias maneiras.  O grande sucesso de uma novela é evidente quando (clique nos links e leia as matérias completas):

A presidente precisa desmarcar um comício que seria realizado na hora da trama.

A Justiça Eleitoral precisa impedir que um candidato exiba o último capítulo em um telão antes de seu comício.

O Operador Nacional do Sistema de energia teme que um apagão aconteça após o último capítulo.

–  As pessoas param para assistir os capítulos na rua.

Casas noturnas se programam para exibir o capítulo final.

Cenas do próximo capítulo

Com tramas de sucesso nos horários das sete e das nove, a Rede Globo terá todas as suas novelas renovadas até o final de outubro, quando Avenida Brasil chega ao fim e dá lugar a Salve Jorge. As expectativas são grandes, principalmente com relação às sucessoras de Cheias de Charme e da trama de João Emanuel Carneiro, que terão a responsabilidade de manter o êxito atual. A renovação da grade começa na próxima segunda, com a estreia da nova fase de Malhação, que voltará à escola na tentativa de aumentar seus índices. O sucesso da eterna trama adolescente é importante para alavancar toda a grade, e pode ter papel fundamental na audiência de Lado a Lado, que chega ao horário das seis em setembro. Confira as tramas que estarão no ar ainda este ano:

Lado a Lado – O horário das seis vai abrigar autores estreantes a partir do dia 10 de setembro. João Ximenes Braga e Cláudia Lage serão lançados em voo solo em uma história que vai falar da mudança do papel feminino na virada do século, sob a supervisão de Gilberto Braga. Com nomes como Camila Pitanga, Morjorie Estiano, Lázaro Ramos e Patrícia Pillar, a trama tem direção do sempre correto Dennis Carvalho. Um dos diferenciais da produção promete ser a fuga do didatismo e do rigor histórico, além da trilha sonora moderna. Essas características prometem diferenciá-la das inúmeras tramas de época que já passaram pelo horário.  Patrícia Pillar de volta, e no papel de uma vilã, já seria motivo suficiente para dar uma espiada na novela.

E depois… Walther Negrão, rei do horário e mestre das tramas leves e românticas, volta com mais uma história ensolarada. Uma de suas melhores novelas, Tropicaliente, teve pescadores como protagonistas e serve de inspiração. O autor até tentou fazer algo semelhante em Como uma Onda, mas, o elenco fraco e direção burocrática demais, resultaram em algo longe do esperado. A próxima trama já levanta suspeitas por ter Jayme Monjardim no comando. O sol alaranjado e o ritmo lento do diretor podem fazer a trama perder todo o calor necessário para uma novela que tem o titulo provisório de O Caribe é Aqui.

Guerra dos Sexos – Silvio de Abreu supervisiona o remake de sua obra e traz um elenco estrelar. Se bem que, na última vez em que o autor resolveu juntar vários nome de sucesso, o resultado foi As Filhas da Mãe. A regravação já vem com toda a carga positiva do sucesso da trama original, mas também virá com o ônus da comparação. O lado bom é que Silvio de Abreu criou uma nova história, já que os tempos são outros. A direção de Jorge Fernando pode contribuir muito para o sucesso da trama. Foi o diretor que fez de Tititi um dos melhores remakes já feitos, cheio de referências e sem vergonha de escancarar suas origens. Vale a pena conferir também as homenagens que serão feitas a Fernanda Montenegro e Paulo Autran, protagonistas da trama original. Eles devem aparecer em flashbacks e dar um charme especial à novela.

E depois… Sangue Bom será a primeira novela original de Maria Adelaide Amaral, que fez um ótimo trabalho em Tititi. A nova produção promete ter a pegada do remake de Cassiano Gabus Mendes, pena que não contará com a direção de Jorge Fernando, perfeita para o horário. Maria Adelaide será sucedida pelo sumido Carlos Lombardi e seu João ao Cubo, que vai falar de viagens ao tempo. E não dá para condenar quem pensou agora em Kubanacan e sentiu medo.

Salve Jorge – Uma mocinha sofredora, intercâmbio com uma cultura exótica, campanha social e um comerciante popular recebendo famosos… É Gloria Perez. Não dá para esperar muita novidade da fórmula criada pela autora, mas também não dá para negar que ela sabe construir um folhetim como ninguém. É  a novela em seu estado mais natural por meio da mais folhetinesca de nossas novelistas. Geralmente é preciso embarcar na viagem sem questionar muito. Costuma fazer sucesso.

E depois… A estreia de Walcyr Carrasco no horário nobre. Pelo histórico do autor na Globo, muita gente está de orelha em pé. Impossível saber o que esperar do escritor no horário, já que ele terá que se distanciar dos diálogos infantis e da comédia pastelão que tanto o marcou. Em Gabriela, o novelista mostra que tem gabarito para tramas densas, mas resta ver como ele vai aplicar isso em uma trama atual.

Virada de Avenida Brasil quase passa da hora

O centésimo capitulo da novela Avenida Brasil traz com ele a tão esperada virada na história, na qual Carminha descobre que Nina é Rita.  Até agora foram quatro meses nos quais, de fato, pouca coisa andou na trama. A novela empolgou porque João Emanuel Carneiro construiu personagens fortes, amarrou bem a história e usou como artifícios a tensão constante entre as personagens principais e pequenos momentos onde a história parece avançar, mas, se formos analisar mais a fundo, veremos que ela se mexeu muito lentamente.

Só há pouco tempo Nina começou a colocar a mão na massa, seduzindo Max e reunindo provas contra Carminha. Aliás, é difícil acreditar que um homem como Max consiga ficar sem ir para a cama com Nina, ou ao menos beijá-la. Ao manter a protagonista intocável, o autor se afasta ainda mais do tão falado vanguardismo que Avenida Brasil definitivamente não tem. A novela é boa, bem escrita e produzida, mas não traz nada de novo ou transgressor, como alguns alegam. Em 1899, a Tieta, de Aguinaldo Silva, foi mais moderninha ao voltar para se vingar e se envolver com o sobrinho, e uma nova classe em ascensão já havia sido retratada em Rainha da Sucata.

Avenida Brasil agora tem cerca de 3 meses (perto de 80 capítulos) para contar o restante da saga de Nina. A próxima parte da novela certamente envolverá ainda mais o público, o que deve fazer a audiência crescer. Caso as médias subam de fato, o que é muito provável, já que tramas que envolvem crimes e viradas geralmente têm audiência ascendente, a atual história conseguirá ultrapassar a média geral do sucesso anterior, Fina Estampa.  Merecidamente. A história pode não ser transgressora, mas é indiscutivelmente um sucesso.

O regresso de Betty Faria

Desta última vez, Betty Faria nem ficou tanto tempo longe das telas da Rede Globo: 4 anos, desde um pequeno papel em Duas Caras. Ela já chegou a ficar seis anos fora no ar, de 1999 a 2005. Entre a trama de Aguinaldo Silva, em 2008, e sua recém entrada em Avenida Brasil, ela ainda passou pelo SBT, na pouco vista Uma Rosa com Amor. Longe de menosprezar seu trabalho na emissora paulista, mas foi na Globo que Betty Faria construiu sua carreira por meio de papéis memoráveis como a Lucinha, de Pecado Capital, e a Joana, de Baila Comigo, até seu ápice em Tieta. O retorno da atriz na trama de João Emanuel Carneiro mostra o quanto seu trabalho faz falta.

Ao interpretar a extravagante Pilar, Betty Faria tem a oportunidade de usar uma faceta pouco explorada na carreira: sua veia cômica. Um pouco acima do tom, o que cai bem na personagem, a atriz está visivelmente se divertindo. Betty, independente do papel, tem uma interpretação forte, característica turbinada por sua postura firme e a voz marcante. Que esse retorno seja pra valer e ajude a emissora a lembrar que tem muita gente boa fora do ar e que revezar os atores faz bem para suas produções e descansa o público. O regresso de Betty nos recorda o manjado ditado “o bom filho à casa torna”. Nada mais justo. Foram atores como ela que ajudaram a construir o que a Rede Globo é hoje.

 

Em tempo: Mãe e filha em Avenida Brasil, Betty Faria e Carolina Ferraz já tiveram outra ligação na teledramaturgia. Ambas interpretaram Lucinha, personagem criada por Janete Clair em Pecado Capital, que depois ganhou um remake de Glória Perez. Elas chegaram a contracenar, em uma participação especial de Betty na regravação de 1998. Veja a cena:

 

Falando em Tieta…

A novela acaba de ser lançada em DVD. São 11 discos, totalizando 38 horas e 50 minutos de trama. Tieta é uma das novelas mais bem produzidas da história da Rede Globo, tem uma direção que não deixa o ritmo cair, trilha sonora impecável, interpretações inesquecíveis e uma adaptação magistral de Aguinaldo Silva. É talvez a melhor adaptação já feita de um livro para a TV. Pelos méritos da novela, sua edição, independente de como tenha ficado, será questionável pelo simples fato de muita coisa ter tido que ficar de fora. Com um material tão rico, fatalmente muitas injustiças aconteceram, o que vai doer nos inúmeros fãs da história.

Por que Vamp e outras novelas não seriam produzidas hoje

Com os critérios adotados para a classificação indicativa e a apologia à nova classe C, que tem popularizado cada vez mais as tramas, muitas novelas de sucesso no passado dificilmente seriam exibidas nos dias de hoje. A classificação, que anda impedido a reprise de tramas das 20 horas no Vale a Pena Ver de Novo e dificultado a abordagem de diversos temas, tiraria do ar tramas que foram exibidas sem problema algum no horário das 18 horas em outros tempos. Já o grande investimento na nova classe social encontrou seu ápice com Fina Estampa e Avenida Brasil, e a ordem, pelo menos na Globo, é investir no novo nicho e evitar tramas muito sofisticadas.

Estou revendo alguns capítulos de Vamp e cheguei à conclusão de que a trama dificilmente seria produzida hoje na TV aberta . Confira os motivos:

1 – Os personagens falam palavrões e usam termos que provavelmente não seriam liberados pela classificação e pela emissora no horário das 19 horas. Além disso, há também muita sensualidade.

2 – A trilha sonora, composta por nomes como Leila Pinheiro e Guilherme Arantes, é romântica demais e não aposta nos ritmos populares.

3 – A trama mexe com diversas religiões e símbolos satânicos.

4 – A novela provoca muita angústia no telespectador (A Vida da Gente foi reclassificada justamente por, segundo o Ministério, causar esse sentimento nas pessoas). Provavelmente seria também acusada de incitar o medo e o terror.

5 –  A história não é de fácil digestão. Há muita possessão e personagens tomando o corpo de outros, o que confundiria o telespectador.

6- Natasha é muito velha. A protagonista seria uma adolescente envolvida em um triangulo amoroso.

Em tempo: Walcyr Carrasco parece mesmo confirmado como o autor da trama que virá após a novela de Glória Perez no horário das 21 horas. Manoel Carlos, que seria o próximo da fila, anda causando temor na emissora por causa do estilo mais sofisticado de suas novelas, distante do tipo de história na qual a Globo está apostando desde Fina Estampa. O novelista terá que trabalhar elementos populares em sua sinopse, mas dificilmente chegará perto do que a emissora considera ideal na atualidade.

Emissoras cometem erros estratégicos e perdem pontos importantes

Cada vez mais próximas umas das outras na briga por audiência, Record, SBT e Band pecam por não pensarem na programação como um todo e apresentarem buracos em faixas importantes. Erros básicos que prejudicam os programas subsequentes e atrapalham a média geral do dia.

A Record, que já esteve em melhor situação, também já teve uma programação mais elaborada. O horário vespertino, que contou com programas de qualidade, como o Tudo a Ver com Isabella Fiorentino e Paulo Henrique Amorim, hoje apresenta um arremedo da atração, que nada mais é do que a reprise de um monte de coisas já apresentadas na emissora. O programa é seguido por Todo Mundo Odeia o Chris, o Chaves da Record, que tem hora pra começar, mas nunca sabemos quando vai acabar. Na programação noturna, o maior erro do canal: a reprise de Vidas Opostas. Colocar uma novela antiga no horário nobre é sinal de que as coisas não estão nada boas. A ótima novela de Marcílio Moraes tem entregado o horário com audiência baixa para a já difícil Máscaras.

No SBT, a parte da tarde também deixa muito a desejar. Começa com enlatados repetidos à exaustão e segue com a reprise de três novelas, geralmente uma mexicana e duas produções próprias. Como não tem muita coisa boa para escolher, as reprises já chegaram em um ponto em que qualquer coisa está valendo. Faltou ao SBT lançar novidades neste mês, onde praticamente todos os canais surgiram com novas propostas.

Na Band, emissora que tem feito investimentos importantes, o maior erro estratégico é vender quase uma hora do horário nobre a um programa religioso. Tudo o que vem depois pega com a audiência com traço e precisa conquistar todo um público. Por dinheiro, a emissora acaba perdendo décimos importantes para a média diária. De manhã, o Dia Dia, com Daniel Bork é um programa tão mal divulgado, que muita gente não sabe que existe. Mas nada que se compare à insistência da RedeTV! com o matinal Manhã Maior, um programa que nunca engrenou, e seus únicos momentos de fama foram graças às gafes de Daniela Albuquerque, apresentadora e mulher do dono. Antes esse fosse o maior dos equívocos da emissora, que perdeu seu principal produto (Pânico) por não respeitar seus artistas, e ainda está desgastando um programa que tem boa audiência, o Mega Senha, com uma reprise sem sentido aos domingos.

E pra não dizer que a Globo é feita de acertos, basta lembrar do Bem Estar,  que já nasceu sem propósito, visto que vem depois da Ana Maria Braga, que já falou sobre tudo o que hoje ele aborda. Com audiência fraca, a atração parece ter esgotado de vez os assuntos. Na semana passada, chegou a ensinar os telespectadores a dançarem o kuduro. Isso sem fazer maiores comentários sobre a desnecessária re-reprise de Chocolate com Pimenta e os filmes de sempre da Sessão da Tarde.

Ninguém espera perfeição da programação de emissora nenhuma, até porque gosto é variável e as opiniões se divergem, mas o mínimo de cuidado é essencial. Em tempos em que cada ponto de audiência é valioso, não dá para brincar em serviço.