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Carlos Lombardi se mexe e assina com a Record

Depois de mais de cinco anos sem escrever uma novela, sua última trama foi Pé na Jaca, o autor Carlos Lombardi assinou com a Record e estreia na emissora no ano que vem. Lombardi não é um autor fácil de ser digerido, não é qualquer diretor leva uma novela sua, mas ele tem uma linguagem moderna, cheia de referências e sabe chegar nos jovens. O autor, na Globo, fez trabalhos importantes como Quatro por Quatro, Perigosas Peruas, Uga Uga, Vereda Tropical, O Quinto dos Infernos e até a controversa Kubanacan. Além disso, ele salvou do fracasso obras como Coração de Estudante e a Malhação de 1997.

Investindo em novos talentos e em tramas mais populares, e usando principalmente o horário das seis e das sete para experimentar, a emissora acabou deixando de lado autores com características mais particulares, como é o caso de Lombardi e de Antonio Calmon, que não escreve novela desde Três Irmãs, no começo de 2009. Carlos Lombardi voltaria ao ar na emissora carioca no final de 2013, um tempo realmente muito longo até para um autor de novelas. Será interessante vê-lo na Record e saber como a emissora vai trabalhar seu texto. Alexandre Avancini, seu antigo parceiro, está lá para ajudar e vai dirigir a sua primeira história. Até quem não gosta do texto de Lombardi, concorda que ele fez a coisa certa e o mercado só tem a ganhar.

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Mordendo a Língua

Convivendo diariamente com personagens e tramas de uma novela, o público acaba se sentindo meio dono daquelas pessoas, consequentemente, se dá ao direito de opinar, torcer, e protestar quando discorda de algo. Essa semana, no Twitter, alguns telespectadores de  Morde & Assopra, ao emitirem opiniões e darem sugestões para o desfecho das tramas, receberam a seguinte resposta do autor Walcyr Carrasco: “Amigos, novela não é eleição, onde todo mundo vota nos candidatos. É obra do autor e ele escolhe os finais que melhor transmitem sua mensagem!”. Ao dar tal afirmação, o novelista diminuiu a maior característica da telenovela brasileira, e a que a difere das tramas de muitos países: o fato de ser uma obra aberta.

Gravada com poucos capítulos de frente (não estamos falando do SBT), a novela é uma obra viva, que pode ser moldada de acordo com a reação do telespectador. Esse fator, aliás, fez com que Morde & Assopra fosse salva do fracasso (leia mais aqui). Com base nos índices de audiência, e em pesquisas qualitativas encomendadas pela Rede Globo, Walcyr diminuiu a participação dos dinossauros e robôs, deu destaque à Cássia Kiss, e fez com que a protagonista da história (a Júlia, de Adriana Esteves) passasse a circular por todos os núcleos.

Walter Negrão é um dos autores com maior percepção dos anseios de seu público. Recentemente, em Araguaia, deixou Solano (Murilo Rosa) com Stela (Cléo Pires), escolhendo um outro final para a apaixonada Manuela (Milena Toscano), só para citar um caso. Em Caminho das Índias, ao identificar a rejeição a Bahuan (Marcio Garcia), inicialmente o mocinho da história, a autora Glória Perez tratou de reforçar o romance de Maya (Juliana Paes) com Raj (Rodrigo Lombardi). Relembrar todos os casos em que trajetórias e finais de personagens foram alterados pela opinião pública daria um post sem fim.

Por sua duração, a telenovela é um gênero que precisa dialogar com quem assiste, concondar, e às vezes contrariar, justamente para que a história sobreviva ao longo período de exibição. Dizer que um autor de novela fez ajustes em sua trama para agradar não é diminuí-lo, mas enaltecer sua capacidade de escutar o receptor. Menosprezando a característica mais interessante das telenovelas brasileiras, Walcyr Carrasco contradiz a própria obra, cheia de mudanças para fisgar aqueles que mais entendem do gênero: os telespectadores.