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Brunete Fraccaroli fala sobre sua participação em “Mulheres Ricas”

Odiado por uns, amado por outros, o programa Mulheres Ricas, da Band, é um dos assuntos mais falados do primeiro trimestre de 2012. O reality, que durante 10 episódios acompanhou o dia a dia de cinco mulheres da alta sociedade, chega ao fim amanhã. O Apanhado Geral bateu um papo rápido com a arquiteta Brunete Fraccaroli, participante que mergulhou de cabeça no programa, participou da maioria dos encontros entre as ricas, e agora acompanha ativamente a repercussão em contato direto com os fãs. Confira:

 Você decidiu participar do programa de imediato? O que te levou a aceitar?

Não aceitei logo de cara pois achei o nome pejorativo para um Brasil pobre. Depois de muitas reuniões com os diretores do programa, entendi que seria um blend, e resolvi me divertir fazendo algo diferente.

Você é a participante que mais esteve nos encontros com as outras, nos eventos… Percebe-se que você se entregou de corpo e alma ao programa. O que mudou na sua rotina quando estava gravando e agora com a repercussão?

Nada mudou na minha rotina, apenas acrescentei as câmeras ao meu dia. Amei todos os encontros com as ricas.

Como era o dia a dia das filmagens? Uma equipe te acompanhava apenas durante momentos importantes?

A equipe me acompanhava o tempo todo. Eu achava engraçado todas aquelas luzes, mas fazia de conta que elas não estavam ali.

Deu mesmo para criar uma amizade com as outras participantes? Como está a sua relação com a Val?

A minha relação com as participantes está ótima, acabei de falar com a Narcisa e com a Lydia. Estou torcendo pela Débora na Formula Truck. Gosto da Val, não gosto das suas atitudes.

O programa ajudou ou atrapalhou a sua carreira?

Nem ajudou, nem atrapalhou. Segui normalmente minha carreira como arquiteta.

Qual foi o melhor momento desta temporada pra você?

O passeio de Angra, que foi o primeiro encontro com a Val. Conheci o João, que é um doce, cozinhei, me diverti.

Como você pretende capitalizar essa fama a partir de agora? Você continua procurando um novo amor ou era coisa do programa?

Não estou procurando um novo amor, são meus amigos que acham que eu deveria ter alguém. Capitalizar esta fama, não sei bem como. Quero ser eu mesma, uma boa mãe e amiga.

O que você vai mudar na sua participação caso aconteça a segunda temporada?

Espero focar mais na minha profissão, meu lado profissional, que ainda não foi explorado.

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Vidas em Jogo revela segredo e Denise Del Vecchio comenta

Aconteceu essa semana na novela Vidas em Jogo, da Record, a revelação do segredo de Augusta (Denise Del Vecchio): a personagem é transexual. Embora a possibilidade já tenha sido levantada em alguns veículos, o desenrolar da trama surpreendeu a maioria dos telespectadores e fez bem à audiência, que conseguiu média de 15 pontos e picos de 19.

A revelação veio em boa hora, a história estava morna e precisava de um novo fôlego e alguma repercussão. Vale destacar a interpretação de Denise Del Vecchio e a classe com que a autora Cristianne Fridman abordou o assunto. A novela poderia ter seguido o caminho fácil de usar um homem travestido, mas além de revelar a trama logo de cara, o resultado seria a caricatura da grande maioria dos casos. Outra novela que tratou do assunto com dignidade foi As Filhas da Mãe. Na história de Sílvio de Abreu, Cláudia Raia interpretava Ramona, uma das protagonistas da história.

Intérprete de Augusta, a atriz Denise Del Vecchio conversou com o Apanhado Geral sobre a personagem, a novela da Record e sua carreira. Confira:

Em que momento você ficou sabendo qual era o segredo da Augusta e qual foi a sua reação?

Fiquei sabendo quando a novela estava há mais ou menos dois meses no ar. A Cristtianne me chamou para uma reunião e me disse que havia essa possibilidade, mas que eu tinha total liberdade para recusar. Vi nisso uma grande oportunidade para realizar um trabalho mais específico na novela e, claro aceitei. Fiquei apreensiva , pois é uma grande responsabilidade profissional e pessoal. Um assusto delicado que precisa ser discutido com honestidade e cuidado para não ferir ninguém.

Quando tomou conhecimento da transexualidade da personagem, você foi pesquisar sobre o assunto? Mudou alguma coisa na sua interpretaçāo?

Não mudei nada na interpretação. Desde o princípio fiz a Augusta uma pessoa recatada, sem glamour, que prefere passar desapercebida, que tem algo a esconder. Fiz isso porque sabia que ela escondia um segredo e pela sua característica de ser muito pão dura. Uma pessoa que ama o filho e se realiza no trabalho. Tanto a Cristianne, como o Avancini, diretor geral da novela, foram bem claros no sentido de que eu não deveria mudar nada no trabalho, que ela é uma mulher.

É a sua personagem mais polêmica na televisão?

Acredito que sim. Mas é uma questão que está pedindo espaço para vir a luz. Tem aparecido algumas pessoas com coragem para assumir sua condição publicamente e exigindo seu reconhecimento pela sociedade. Uma das principais características da Cristianne como autora é encarar os temas atuais sem ser panfletária, mas contando as particularidades, alegrias e dores de seus personagens.

Quais serão os próximos passos da personagem? Acredita que ela possa ser uma das próximas vítimas do bolão ou mesmo a assassina?

O que sei até agora é que ela continua hospitalizada depois do enfarte que sofre, quando é rejeitada pelo filho. Como todos os outros integrantes do bolão há a possibilidade dela ser assassinada   ou ser assassina. Isso não muda.

Qual é o balanço que você faz da novela até agora? Acredita que a demora da emissora na produção da próxima trama, levando Vidas em Jogo a uma longa duração, pode prejudicar a trama?

A audiência da novela tem crescido semana a semana. Como são dez protagonistas, membros do bolão, há muita coisa para contar e não acredito que a duração vá prejudicar o desenvolvimento da trama. Claro que para a autora exige um esforço suplementar para chegar ao final.

Você tem passagens por diversas emissoras, sem nunca se prender a nehuma delas. Era uma opção? O que a levou a ter esse vínculo com a Record, onde você tem trabalhos regulares há alguns anos?

Realmente trabalhei em todas as emissoras, desde a tv Tupi e não me arrependo nem um pouco. Isso me deu experiência com diretores, autores e colegas variados . Trabalhei em diversos esquemas de produção. O teatro também é uma atividade muito constante em minha vida e nunca deixei de fazer. Isso me possibilitou viver da minha profissão todos esses anos sempre mudando de empregador. O que mais me chamou atenção , quando recebi o convite para trabalhar na Record, foi a possibilidade do novo. De estar junto com o surgimento de uma nova central de produção de teledramaturgia. Estou muito satisfeita com os trabalhos que tenho feito lá e com o respeito com que a casa me trata.

Revolucionária

No ar como a Jandira, da novela Amor e Revolução, Lúcia Veríssimo tem um grande ponto em comum com sua personagem: luta por tudo aquilo em que acredita. Com papéis marcantes na carreira, a atriz é uma mulher de opiniões fortes. Em entrevista ao Apanhado Geral ela falou sobre a novela do SBT, a saída da Globo e as novas apostas de sua carreira. Confira:

As gravações de Amor e Revolução já terminaram. Qual o balanço que você faz da novela e da experiência no SBT?

A novela era o projeto que a TV brasileira precisava para dar uma modificada no cenário televiso nacional, mas não teve dentro da emissora a mesma visão. Acho que fomos extremamente prejudicados com a falta de regularidade do horário. Por exemplo, na estreia tínhamos no horário anunciado para o início, a marca de 2 dígitos e como não começou na hora esse número declinou. Entrou no ar com 45 min de atraso. Eu mesma até hoje não sei o horário da novela. O público que assiste o programa que antecede a novela, não é o mesmo que assiste a novela, então o fato de não entrar no horário certo, dificulta você conseguir a assiduidade dos telespectadores. Eles desistem.

O fato de ter estreado com muitos capítulos escritos e gravados fez com que as mudanças necessárias demorassem a acontecer. Isso prejudicou a novela?

Eu sou a favor de uma frente. Mas não acho que podemos trabalhar com uma frente maior do que 24 capítulos o que equivale 1 mês de antecedência para uma novela de segunda a sábado e no caso de uma novela de segunda a sexta, acho que a frente deveria ser de 20 capítulos. Com esses números, você não fica vulnerável e ao mesmo tempo pode ter tempo hábil para acertar arestas. Enquanto estávamos gravando, tínhamos uma frente de 45 capítulo e agora essa frente aumentou barbaramente. Não sei mais precisar. Os capítulos foram divididos e não sei qual critério foi usado para essa edição. Sei que terminei de gravar em agosto e estamos longe do final, que não sei quando se dará.

O que te levou a aceitar o convite do SBT após tantos anos na Globo? O fato de ter sido pouco requisitada pela emissora carioca nos últimos anos pesou muito? 

Em primeiro lugar pelo projeto. Eu fui fisgada pela possibilidade de contar uma história que foi varrida para debaixo do tapete e que é de suma importância trazê-la a tona. O brasileiro precisa saber o que, de fato, aconteceu naqueles anos de chumbo. Uma nação que tem consciência do que se passa na sua política, pode estar mais preparada para não aceitar determinados padrões de conduta. Acho também que a TV tem a obrigação principal de informar e essa informação do que os anos de repressão fizeram na nossa sociedade ficou obscura. E essa obscuridade aumentou a alienação. E também tem o aspecto de que se não mexermos na ferida que não cicatrizou perfeitamente, ela pode voltar a abrir. Ou seja, se não houver uma investigação real e uma punição aos culpados, quem nos garante que novamente não soframos do mesmo mal? E quanto a emissora carioca, de fato, há muito seu interesse por mim já não mais é o que era em outros tempos. Também me tornei uma pessoa desagradável no que se refere aos novos padrões escolhidos e acabo reclamando deles. Ninguém gosta de trabalhar com quem reclama de seus métodos.

Você é uma pessoa que sempre contestou, lutou pelas suas idéias e defendeu aquilo que acreditava. Você acha que o ator deve divulgar suas opiniões, participar de campanhas políticas? 

Acho que mais do que um dever, deveria ser uma obrigação. Eu compactuo com a ideia de que não é a toa que me foi dado o direito de ser uma formadora de opinião. Tenho o dever de, através das minhas palavras, fazer valer as causas que me identifico e defendo. Não acredito que me foi dada a fama para tirar fotos ou autógrafos.  Quando um admirador/a chega a mim falando que uma determinada coisa que eu disse fez com que ele/a revesse seu ponto de vista sobre aquilo e que o fato d’eu ter dito deu força para que ele/a mudasse sua ação, já me vale estar aqui e fazer o que faço.

A peça Usufruto, escrita por você, nasceu de questionamentos próprios? 

Não. Nasceu da minha indignação com o enorme retrocesso a qual estamos aprisionados. Sou uma mulher que viveu sexo, drogas e rock’n roll, lutou contracultura acreditando que chegaria aos 50 anos vendo um mundo melhor e chegou vendo uma caretice sem fim, coberta por uma camada muito grossa de hipocrisia. Foi dessa revolta.

Você pretende escrever outra peça? Tem vontade de se aventurar neste campo na TV? 

Pretendo e estou escrevendo vários projetos novos. Penso sim em escrever para TV. Penso em escrever um seriado ou mini série. Não sei se terei estrutura para escrever uma novela. Também estou fazendo o tratamento cinematográfico de Usufruto. E quero escrever outros roteiros. Também comecei a escrever minhas memórias. Acho que já tá na hora de ordenar as coisas no papel. Vamos ver onde vou chegar e quanto tempo vou levar.

Você dará um workshop em São Paulo, entre novembro e dezembro, que vai trabalhar em cima do texto “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues. Por que esse texto? 

Não pretendo ficar apenas nesse texto, na verdade, minha vontade é rever toda a obra desse autor que conto como sendo o um dos mais instigantes e polêmicos ao lado de Plínio Marcos que é meu outro autor nacional preferido. Esse dois me fascinam. Eles escrevem esfregando na nossa cara esses aleijões da raça humana, como diz com tanta propriedade Plínio. A forma como eles exploram as distorções de caráter dos seus personagens me hipnotiza. Passeiam nessa atmosfera de crítica à sociedade e sua hipocrisia de uma forma genial. Com a  proximidade do centenário de Nelson, eu me questionei por que ainda não havia trabalhado em cima de uma autor que eu admiro e respeito tanto e resolvi fazer o curso. Meu desejo é que eu possa trabalhar todos os textos dele. Vamos ver como resultará esse primeiro e definirei o que virá a seguir.

É a primeira vez que você dá um workshop? É uma forma de se reciclar também? 

Eu tive um curso de teatro nos anos 80 que era um chamado Grupo de Teatro Na Mesma Canoa. Mas nesse eu trabalhava com crianças. Fazia infantis. Trabalhava principalmente texto de Pedro Veiga e Pernambuco de Oliveira. Autores infantis que adoro. Sem dúvida que dando aula também me revejo. Estou montando as aulas e já tem sido sensacional. Estou abrindo visões incríveis sobre esse texto e sua interpretação. Também estou revendo meu olhar sobre Nelson. Tudo que você faz dentro do teatro é uma reciclagem. O ator precisa do teatro seja de que forma for. É no palco que ele se recicla.

As novelas dos anos 80 e 90 são sucesso e geram bastante repercussão através do canal a cabo Viva. Você tem saudade daquela época? As novelas eram melhores? 

Uma enorme saudade. Assisto o canal Viva e fico emocionada. Não era a troco de nada que éramos considerados os melhores do mundo nessa “modalidade”.  Era uma TV diferente também. Uma novela de sucesso fazia 98 de ibope. Hoje em dia pra fazer sucesso você precisa de 44. Mas não tínhamos a TV fechada, mas pra te dizer a verdade, penso mesmo que se tivéssemos novelas como as que fazíamos naquele tempo teríamos um resultado bem melhor do que temos hoje em dia. Me lembro de novelas que marcávamos de nos encontrar para qualquer coisa só depois da novela. Me lembro que de uma novela que quando estava no ar nada mais acontecia. Estava fazendo teatro nessa época e resolvi colocar uma TV no saguão e convidar as pessoas para virem assistir conosco a novela, antes do espetáculo. Nós do elenco também assistíamos e esse negócio de gravar para ver depois não era coisa fácil. Antigamente um autor escrevia muitíssimo bem para poucos personagens. Hoje esse número  de personagens é o dobro e muitas vezes o triplo. Fica difícil escrever para tantos com profundidade. Tínhamos no máximo 3 diretores trabalhando na novela. Na verdade era um diretor geral, um diretor de estúdio e um diretor de externas. Hoje em dia uma novela não tem menos do que 6 diretores trabalhando em seis frentes. Conversei com um diretor da Globo sobre isso e ele me respondeu, “mas hoje em dia LV os capítulos tem muitas vezes mais de 60 cenas, precisamos abrir muitas frentes. E eu contra argumentei , mas são cenas sem nenhuma profundidade. Melhor se aprofundar nelas e escrever menos cenas, não? Cito como exemplo a novela A Favorita. Tinha pouquíssimos autores, cenas profundas e atores incríveis. Resultado: máximo. É uma novela com os padrões antigos. Não gosto do pensamento que damos ao povo o que eles querem. A TV de antigamente dava qualidade e o povo ia atrás. Ao contrário do que afirmam, podemos e devemos mudar a TV. Não podemos nivelar por baixo. Temos que novamente subir o nível. Mas sinto isso não só na TV. O Teatro também está numa fase de superficialidade terrível. É uma pena. Não gosto de nada superficial, gosto de profundidade Isso não quer dizer que você precise ter apenas grandes dramas. O besteirol dos anos 80 era comédia rasgada, mas tinha conteúdo, crítica, profundidade. Hoje em dia só besteira. E não me venha dizer que o povo gosta disso, pois tenho exemplos magníficos de teatro bom, com profundidade que ainda faz enorme sucesso. Graças a Deus. Então deveríamos rever nossas produções e mudar o nível também no teatro.

Qual dos seus trabalhos você gostaria de rever e por quê? 

Você diz trabalho da TV que eu gostaria que reprisasse? Eu adorava Delegacia de Mulheres.

À mestra, com carinho

Solange Castro Neves é daquelas pessoas capaz de transmitir doçura através de um simples olhar. Talvez tenha sido isso, além do talento, que encantou uma das damas da teledramaturgia brasileira. Mais do que colaboradora, Solange foi uma amiga de Ivani Ribeiro. Atualmente dedicada ao cinema, ela falou ao Apanhado Geral sobre a reprise de Mulheres de Areia e relembrou curiosidades do convívio com  Ivani.

Você esperava essa nova exibição de Mulheres de Areia? Ficou sabendo através da imprensa ou foi avisada pela emissora?

Já estava sabendo pela emissora, por causa da homenagem pelos 100 anos da Ivani.

Mulheres de Areia é a terceira novela da Ivani Ribeiro que ganha uma re-reprise. Como explicar esse constante retorno da autora ao Vale a Pena Ver de Novo?

Sou suspeita para falar, pois para mim a Ivani foi e continua sendo a maior escritora da teledramaturgia brasileira.

Você acompanha a reprise? O que tem achado da edição?

Infelizmente não consigo acompanhar pois estou trabalhando nesse horário, mas já vi várias vezes porque tenho todos os capítulos gravados das novelas que tive a honra de trabalhar ao seu lado.

A abertura, exibida normalmente no horário das 18h em 1993, foi modificada. Tivemos também cortes em cenas da Raquel bebendo. O você acha dessa onda moralista que anda rondando a tv?

Nunca tivemos problemas com a censura mas acredito que o corte de determinadas cenas tenha acontecido em virtude do horário da tarde, sendo que muitas crianças estão em casa e assistem a novela.

 Como a Ivani trabalhava na reedição? Era feita diretamente dos capítulos da primeira versão? Como ela dividia o trabalho com você?

Trabalhei doze anos com a Ivani. Nas primeiras novelas ela me ensinou a carpintaria da TV e o seu estilo de escrita. Para tanto, precisei fazer curso de câmera, pois ela descrevia as cenas usando termos técnicos de direção, por acreditar que assim facilitaria o trabalho dela e do diretor. Com o tempo ela foi criando confiança e nós desenvolvíamos juntas a escaleta e depois eu trabalhava em casa. Nas três últimas novelas, por motivos de saúde, eu fazia o trabalho e depois lia para ela. Ivani foi uma mestra única. Ela não dizia o que estava errado ou o que eu tinha que corrigir. Ela apenas contava uma história ou mesmo uma metáfora para que eu percebesse o erro. Vou dar um exemplo: na A Viagem, havia o personagem do Mascarado que tinha sofrido um acidente no qual ficou com o rosto todo deformado. O seu grande amor era o personagem da Suzy Rêgo. No decorrer da trama, pensei que para unir os dois e serem felizes, ele faria plásticas no rosto e então ela contou-me a história de uma mulher que era prostituta e foi retirada das ruas por um médico que lhe deu um lar de verdade, filhos, tornando-a uma senhora respeitável para todos, entretanto, essa mulher nunca conseguiu ser feliz, pois a mesmice do dia a dia, para ela, que tinha a cada dia uma nova aventura, não bastava. Pensei muito na história que ela me contou e entendi que o Mascarado vivia cada dia em um lugar, sendo aplaudido pelas crianças, pelos jovens, encantando a todos com suas fantasias e seus versos românticos. Não seria feliz se deixasse esse mundo e vivesse apenas para um amor idealizado. Assim Ivani usava desses subterfúgios para passar sua mensagem.

Quanto a usarmos nos remakes os capítulos das novelas anteriores, isso nem passou por nossas cabeças, primeiro porque não os tínhamos gravados. Segundo porque para que um remake de uma novela  tenha sucesso, temos que utilizar apenas a espinha dorsal da história pois a época é diferente, os atores são diferentes, então a história não pode ser a mesma. Por exemplo, a Ruth e a Raquel. A Ruth, na primeira versão, era uma jovem boazinha, tímida e que não lutou pelo seu amor. Tanto que o público torcia para a Raquel. Na segunda versão, a Ruth era uma jovem inteligente, mas que carregava dentro de si um segredo e só quando ela consegue se libertar do passado é que ela começa a lutar pelo seu amor, o que a fez mais equilibrada, com uma personalidade mais forte e decidida para ir em busca dos seus sonhos.

A novela teve algum problema ou dificuldade nos bastidores e que chegou até vocês? Evandro Mesquita foi realmente afastado porque não se adequou ao personagem, conforme noticiado na época?

Toda novela tem problemas que chegam a nós autores e que junto aos diretores, procuramos uma solução. A Ivani dava muita importância ao som e principalmente aos diálogos para que não fossem repetitivos, tivessem uma sonoridade suave, gostosa. Assim, trabalhávamos muito nos diálogos. Para ela, uma cena tinha de ter uma razão de ser e a pergunta era: “Pra que serve esta cena? Ela leva a novela para frente? Ela é cômica, romântica, de uma maneira ou de outra ela surpreende o público? Mexe com as emoções dos telespectadores?” Se não tivesse nenhum destes requisitos, mandava jogar no lixo e fazer outra.

O Evandro Mesquita, por várias vezes, recebeu “rubricas” para não mexer no texto, não colocar tantos cacos nos diálogos, mas ele tinha uma maneira própria de representar, é muito engraçado, o lado cômico ressaltava em todas as cenas e ele criava textos em cima dos nossos diálogos. Assim, para evitar maior confusão, Ivani deu um jeitinho dele passar férias no Havaí.

Como vocês trabalhavam a questão da resposta do público? Algum fedeeback positivo ou negativo que causou alguma mudança na trama?

Em Mulheres de Areia, eu ainda não entendia muito sobre a religião espírita da umbanda, e o personagem Donato, de Paulo Goulart, usava no pescoço uma corrente branca e azul e se dizia filho de Iemanjá. Recebemos cartas, jornais, telefonemas, onde os pais e mães de santo fizeram até ameaça pois diziam que um homem como Donato não podia ser filho de Iemanjá, e estávamos denegrindo a imagem dessa orixá. Naquele tempo não havia internet para uma pesquisa mais rápida e eu não tinha tempo para averiguar, afinal o por que de toda essa revolta. Resolvi então dar uma entrevista onde falei que o personagem Donato teria uma reviravolta e todos iriam saber a verdade. Disse que nós jamais denegriríamos a imagem de um orixá. Depois de muito pensar, bolei uma cena em que Donato caminhava pela areia da praia, perto do mar, e a corrente do pescoço dele se arrebentava e as águas do mar levavam para o fundo as contas. Logo em seguida aparecia a imagem de Iemanjá, no meio das ondas, dizendo que ele nunca foi filho dela. Desde então, aprendi uma grande lição, o quanto é importante a pesquisa e dominar o assunto do qual estamos tratando, para evitar este tipo de problema. Na Viagem, eu me apoiei em quatro grupos espirituais: Allan Kardec, Rosacruz, Maçonaria e um grande estudioso da espiritualidade, abrangendo assim várias áreas. Assim não tivemos nenhum problema no decorrer da novela.

Como era a sua convivência com a Ivani Ribeiro e o que você leva até hoje do período em que trabalhou com ela?

Ivani foi uma amiga, companheira, minha mestra e minha mãe de coração. Com ela aprendi a dose certa do romantismo, não ter vergonha de expor as emoções, a importância dos links, dos suspenses e que, principalmente, uma novela para dar certo depende não só do autor, como do diretor, da produção, de todo o elenco, dos câmeras, dos figurinistas. Não existe uma boa história sem um bom diretor, como o contrário também é verdadeiro.

Você tem alguma mágoa da Rede Globo por não ter levado Quem É Você? até o fim da forma planejada por Ivani? Depois você passou por um problema semelhante em Roda da Vida, na Record… Mesmo com todos os percalços pensa em voltar à TV?

Não tenho mágoa nem da Globo, nem da Record. Na Globo o problema surgiu por incompatibilidade de estilos entre eu, que ainda acredito no amor, na amizade sincera, e Lauro César Muniz, um grande escritor mas de estilo totalmente diferente do meu. Quanto à Record, não houve problema parecido. Saí devido a problemas pessoais de doença na família. Hoje estou trabalhando no meu segundo longa-metragem mas se me convidarem para voltar à TV, por que não? Adoro minha profissão.

Você está trabalhando no roteiro de um filme sobre Ana Jansen. O que você pode falar sobre a produção? O cinema te pegou de vez?

Estou fazendo o segundo tratamento do roteiro e fiquei muito feliz por ter sido convidada a participar deste projeto. Ana Jansen a Rainha do Maranhão, é uma mulher que viveu no século XIX, pertencia à nobreza mas já nasceu quando a família estava praticamente na miséria. Foi o arrimo da família e de rameira, como muitos a chamavam, pois a moral daquela época era muito rígida, conseguiu se tornar a mulher mais poderosa e mais rica do Maranhão.  Uma mulher à frente do seu tempo. Teve onze filhos e deu uma primorosa educação a todos, mandando-os estudar em Lisboa, Rio de Janeiro, sem distinção de sexo. Uma mulher à frente de seu tempo. ANA JANSEN atravessa o Brasil de Portugal. Vive no primeiro império, manda no Maranhão de Pedro II, faz histórias, é a própria história. Faz filhos, lendas. É generosa e autoritária. É mulher e muito homem. É pobre, mas conquista muita riqueza. É usada e usa sem limites a liberdade, o poder da vida, a sedução… De rameira à rainha do Maranhão. A maior líder do Partido Liberal. Sua força e sabedoria nascem de suas entranhas; sua extrema confiança em si, investe-lhe de poder.

Se tivesse a chance de reeditar uma novela de Ivani Ribeiro qual seria e por quê?

Cavalo Amarelo, porque era um sonho da Ivani que eu gostaria de realizar.

O mágico das onze

Teatro, televisão. Autor, co-autor, colaborador. Novela, minissérie, série. Com passagens por diversos gêneros, formatos e horários, Alcides Nogueira tem a versatilidade necessária para comandar projetos desafiadores. Em parceria com Geraldo Carneiro, ele é um dos autores da nova versão de O Astro, novela que inaugurou o horário das onze na teledramaturgia da Rede Globo. É sobre a trama, cujo último capítulo vai ao ar no próximo dia 28, que o dramaturgo falou ao Apanhado Geral. Confira a entrevista:

 Como o projeto de “O Astro” chegou até você?

O pai do projeto é o Roberto Talma, que convidou a mim e ao Geraldo Carneiro para fazer a releitura de “O Astro”, abrindo esse novo horário das 23 horas. Eu estava com sinopse aprovada (em parceria com Mario Teixeira) para uma novela das 18 horas. Mas a série passou a ser prioritária.

Como funciona a sua parceria com Geraldo Carneiro? Imagino que ao mesmo tempo em que é bom criar com outras pessoas, deve ser difícil dividir o que você imagina, conciliando as diferentes visões.

Tenho uma boa experiência em parcerias (com Gilberto Braga em “Força de um Desejo”, com Maria Adelaide Amaral em “Um Só Coração” e “JK” – que contou também com Geraldo”, com Sílvio de Abreu). Quando há sintonia entre os autores, não há conflito. Com o Geraldo, essa sintonia é afinadíssima. Muitas vezes temos visões diferentes sobre tramas e personagens, mas, trocando figurinhas, chegamos a um denominador comum.

Você acha que o horário das onze veio pra ficar? Escreveria novamente para ele (com tramas de 60 capítulos) ou prefere o horário das seis, que atualmente está com média de 150 capítulos?

Acho que a acolhida que “O Astro” teve mostrou que o telespectador se interessa por esse horário. Está consolidado, sim. É um ganho para a teledramaturgia. Sem dúvida eu escreveria novamente para as 23 horas, mas meu coração balança. Sempre gostei muito do horário das 18. Na verdade, eu gosto é de criar.

Você deu alguma sugestão, ou participou de alguma forma, da trilha sonora? Falando nisso, uma pergunta para os colecionadores: é verdade que o CD com a trilha da novela não será lançado?

Como sou apaixonado por música, sempre dou meus pitacos em trilhas sonoras. Mas, desta vez, tudo ficou nas mãos de Roberto Talma e Mauro Mendonça Filho, que acertaram. Como colecionador, também estou desolado. Pelo que me informaram, deve sair o dvd da série, mas não o cd. Uma pena!

Qual foi a maior dificuldade da adaptação? Alguma trama da primeira versão que você teve que deixar de fora com pena?

A maior dificuldade foi encontrar um tom que preservasse o espírito da história original de Janete Clair (que é ótima) com uma narrativa ágil. Como o formato era outro, a questão era se encontrar o equilíbrio entre os dois trilhos. Junto com a direção, optamos por uma pegada “vintage”. Preservamos os pilares centrais (a trajetória de Herculano, o drama de Márcio etc), mas o resto é criação nossa. Usamos e abusamos de referências literárias e cinematográficas, de séries, de histórias em quadrinhos… Tivemos de deixar várias tramas e subtramas de fora… Com pena, sim!

A novela teve pesquisa qualitativa? Deu tempo de mudar alguma coisa?

Não houve nenhum grupo de discussão. Mas, durante a série, modificamos algumas coisas… Hoje é muito bacana a interatividade que existe com a internet. Assim, ficamos sabendo como as tramas são recebidas praticamente em tempo real. Isso, se bem usado, enriquece.

Sobre a tão falada interpretação da atriz Regina Duarte: ela foi a Clô imaginada por vocês?

A Regina é esplêndida. Esse estranhamento que produziu com sua interpretação foi essencial para a tal pegada “vintage”, que eu citei. E é preciso ter muita bagagem e muito talento (como ela tem) para se arriscar. Hoje, as pessoas gostam muito da Clô, curtem a maneira como a Regina “veste” o personagem. Basta ver os comentários no twitter e nas redes sociais.

As novelas são um espelho da época em que são exibidas. O que o remake tem de diferente da primeira versão que representa essa mudança de comportamento, de atitudes, de 1978 para os dias de hoje?

Não gosto muito da palavra remake. Prefiro nova leitura ou algo assim. Mesmo sendo a história de Janete absolutamente atual, o mundo mudou muito de 1978 para cá. Janete escreveu “O Astro” debaixo de uma forte censura imposta pela Ditadura Militar. Ela foi corajosa, muito corajosa! E foi essa coragem que no incentivou a ousar mais… E ousamos.

Se você tivesse que escolher outra novela para reeditar às onze, qual seria e por quê?

Escolheria “O Rebu”, do Bráulio Pedroso. É uma história fascinante, que merece ser conhecida pelas novas gerações.