História de amor com o público

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Vai ao ar na sexta-feira, pelo Viva, o último capítulo da reprise de História de Amor. A novela de Manoel Carlos, que também já teve espaço no Vale a Pena Ver de Novo, tem um público cativo e é sucesso garantido sempre que é exibida. Com uma trama central simples, talvez a mais delas entre as já “cotidianas” novelas do autor, História de Amor acaba sendo atemporal e encantando justamente por ter como protagonistas os sentimentos mais básicos do ser humano: o amor maternal sem medidas, a rivalidade entre mãe e filha, a cumplicidade entre vizinhos, o ciúmes desmedido… Estão todos lá, em histórias que poderiam estar acontecendo na casa ao lado ou na nossa própria casa.

Quem já não viu uma filha tratar mal uma mãe e sentiu raiva disso? Quem não sabe de uma patroa que trata a funcionária como alguém da família? Quem não conhece alguém ou não teve um vizinho ou amigo com intimidade para abrir a geladeira? Em História de Amor, esses gestos e sentimentos simples eram fundamentais e criaram e criam identificação imediata com o telespectador, não importando quantas vezes a novela for exibida.

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Esses momentos não teriam tanto peso se não fossem costurados por aquilo que Manoel Carlos tem de melhor: seus diálogos, que poderiam sair da boca de qualquer pessoa real. Soma-se a isso uma direção na medida certa, que não quis se sobressair à história, contribuindo para o clima leve e despretensioso que a novela tem. Não é à toa que Ricardo Waddington foi responsável também pelos maiores sucessos do autor na Rede Globo (Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas).

Regina Duarte foi outro ponto fundamental para o sucesso da novela. Ela interpretou a sua melhor Helena, a mais popular e próxima do telespectador. Tão real e simples, que seu visual chegou a ser criticado na época da exibição. É possível ver, em cada cena da atriz, sua paixão em interpretar aquela mulher, tanto é que ela chegou a pedir para Boni (diretor da emissora na época), que a novela fosse eterna, como já contou em diversas entrevistas. Não foi só ela que teve esse desejo.

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O elenco é praticamente irrepreensível, salvo um ou outro caso. Conta com um José Mayer com charme e descrição na medida certa; uma Carolina Ferraz ainda sem maturidade como atriz, mas dando conta do recado; uma Carla Marins que foi atriz o suficiente para ter as melhores cenas com Regina Duarte; e uma Lilia Cabral naquele que eu considero, até hoje, seu melhor papel na TV, com nuances e mudanças de comportamento que poucas atrizes conseguiriam levar sem cair no ridículo. Podemos citar ainda Nuno Leal Maia, Eva Wilma, Bia Nunnes, Yara Cortes e praticamente todo o elenco.

E é impossível não mencionar a trilha sonora, tanto aquela lançada nos CD`s, quanto a instrumental. A verdade é que História de Amor é uma daquelas raras novelas nas quais tudo dá certo. Não é recordista de audiência, não é uma novela tida como um grande clássico, mas conquista pouco a pouco, capítulo a capítulo, quem quer que se atreva a assisti-la. Afinal, é assim, sem pressa, que acontecem as grandes histórias de amor.

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Geração Brasil investiu em tecnologia, mas esqueceu sua trama

Geração Brasil

Quando entrou no ar, Geração Brasil foi cercada de expectativas. Os autores Felipe Miguez e Izabel de Oliveira vinham de uma estreia de sucesso, com Cheias de Charme, e grande parte do elenco estava de volta. Porém, logo nos primeiros capítulos, as melhores impressões foram quebradas e a novela revelou-se modernosa demais e com história de menos.

Inspirados pelo sucesso de Cheias de Charme, que tinha a internet como grande parceira, os autores investiram ainda mais na modernidade, mas a falta de uma trama consistente e o grande número de quadros, que em nada faziam a história andar, prejudicaram o envolvimento do público com a novela. O excesso de programas e realities, cansativos e nada empolgantes, afastou o telespectador.

Soma-se a isso o fato de que novelas que trazem tecnologia como tema central geralmente não agradam o público. O caso mais significativo é o de Tempos Modernos, mas também podemos citar Morde e Assopra, cuja parte modernosa perdeu bastante espaço ao longo da trama.

Com uma história fraca, sem um casal central empolgante ou um vilão que hipnotizasse o telespectador, os atores tiveram pouco espaço para se destacar. Nem Cláudia Abreu ou Renata Sorrah, atrizes sempre impecáveis, conseguiram fazer personagens inesquecíveis. Luis Miranda talvez seja o único que tenha conseguido tal façanha, tornando sua Dorothy quase maior do que a novela.

Geração Brasil foi ainda prejudicada pela Copa do Mundo e chegou a ser exibida em flashes de cinco minutos, dando ênfase a um aplicativo com o qual os telespectadores puderam enviar vídeos caseiros. Mas o que mais prejudicou foi mesmo o esquecimento de uma máxima simples: a de que novidade nenhuma substitui uma história bem construída. Isso, aplicativo nenhum pode mudar.

Tem que ter peito

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Desde a última segunda-feira, está de volta, pelo canal Viva, a novela O Dono do Mundo, de Gilberto Braga. Exibida em 1991, a trama é mais lembrada por suas polêmicas do que por sua história. A professora Márcia (Malu Mader), seduzida pelo inescrupuloso cirurgião plástico Felipe Barreto (Antonio Faguntes), que consegue levá-la para a cama antes do marido, foi rejeitada pelo público, assim como toda a trama principal. Se, na época, a história central já pareceu meio fora do tom, hoje ela é quase ficção científica: Márcia era virgem e o médico conseguiu impedi-la de ir para a cama com o marido por quatro capítulos após o casório.

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Outra constatação fácil é de que uma trama com esse mote nunca seria aprovada nos dias de hoje, de forte patrulha moralista e dura classificação indicativa. Um exemplo dos novos tempos: a foto que abre essa matéria é a primeira tomada de O Dono do Mundo. Os seios femininos ainda apareceram em destaque pelo menos outras duas vezes no episódio de estreia. Na contramão, há algumas semanas, foi ao ar, em Malhação, uma cena em que a personagem de Helena Fernandes faz um autoexame de mama (para marcar o Outubro Rosa, campanha de conscientização contra o câncer). A exposição do seio da atriz gerou inúmeros comentários nas redes sociais e muitos telespectadores disseram que a emissora estava apelando. O assunto foi, inclusive, tema de algumas matérias, como esta aqui, de O Globo.

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Embora tenha acontecido em Malhação (às 17h24), é preciso levar em conta que era uma campanha de conscientização e que a cena não teve nada de apelativa. O Dono do Mundo, apesar de polêmica e rejeitada incialmente, mais pela atitude da mocinha do que qualquer outra coisa, deve ser lembrada como uma novela de uma época em que a patrulha moralista não interferia tão fortemente no que ia ao ar. Hoje em dia, é preciso ter peito para mostrar certos temas e tocar em certos assuntos. Com o perdão do trocadilho.

*Na época da exibição original, O Dono do Mundo teve 43 pontos de média geral. A antecessora, Meu Bem Meu Mal, que também não foi sucesso absoluto, teve 49. Pedra Sobre Pedra, que substituiu a trama de Gilberto Braga, fez 54 pontos.

 

Na trilha do som: Império Nacional

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Com três meses de novela no ar, chegou às lojas o CD com a trilha nacional de Império. A tiragem inicial é de 30.000 cópias e a capa conta com a atriz Leandra Leal, uma boa escolha, já que ela é teoricamente a mocinha da novela. A foto, embora não tenha sido feita exclusivamente para o CD (é de divulgação da Rede Globo), pelo menos parece que foi. Infelizmente, a Som Livre há bastante tempo não faz um ensaio só para as trilhas, mas neste caso não compromete.

A seleção não é lá grande coisa e o maior destaque é canção de abertura, que aparece como bonus track, já que, desnecessariamente, também virá no CD internacional (nas lojas até o dia 15 de novembro). ‘Lucy In The Sky With Diamonds’ é cantada por Dan Torres, que pode não ser The Beatles, mas não faz feio. O fato de ser uma nova versão criou uma identidade para a trama, o que é positivo. ‘Ai Que Saudade D’Ocê’ ganhou uma bonita roupagem na voz de Zeca Baleiro e, tirando a da abertura, é a única que se sobressai, até por ser tema de Cristina (Leandra Leal) e Vicente (Rafael Cardoso) e já ter tocado diversas vezes.

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Há repetição fora do normal de músicas que já estiveram em outras trilhas de novelas, embora com outros intérpretes. ‘Ai Que Saudade D’Ocê’ é um caso, já esteve em Renascer pela voz de Fábio Júnior, porém muita gente não lembra, o que ajuda. Mas há músicas saturadas, como ‘Vem Quente Que Eu Estou Fervendo’ (Amor e Revolução e Anjo de Mim, no mínimo); Amor Perfeito (Aquele Beijo e Caras e Bocas, em versão internacional) e Enrosca (Estrela Guia). O autor Aguinaldo Silva já tinha avisado que o CD contaria com músicas que já estiveram em novelas, mas algumas canções são tão marcantes (casos dos três exemplos anteriores), que mesmo roupagens diferentes não tiram a sensação de déjà vu.

O caso mais crave é o de ‘Dona’, sucesso inesquecível na voz do grupo Roupa Nova, que embalou a antológica Viúva Porcina (Regina Duarte). Em Império, ela volta com a voz de Alex Cohen. A versão é bonita, mas dificilmente vai colar como a música de Maria Marta (Lilia Cabral). A homenagem é válida, porém, ela sempre será lembrada como uma canção de Roque Santeiro. A música, aliás, nem faz parte do CD. Junto com ‘Faz Cara de Rica’ e ‘Se Eu Largar o Freio’, que tocam muito mais do que algumas canções do disco, devem ter ficado para um provável volume 2. Caso ele não exista, a falta é grave.

Não é uma trilha marcante, mas também não é ruim e, fora as repetições, conta com outras belas músicas (como ‘Beijo de Hortelã’, de Ivete Sangalo), embora sem destaque na trama.

Voltei Pra Você*

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Mais de um ano e duas novelas das nove depois, resolvi voltar para o blog. É uma atividade que faço por puro prazer, unindo duas paixões: a escrita e as novelas. E como até nas maiores paixões vivemos momentos de incertezas, precisei esperar meu coração voltar a bater mais forte para que escrever aqui continuasse a ser algo prazeroso e natural. Assim, com o coração batendo forte, voltei. Espero reconquistar todos vocês!

*Voltei Pra Você é o título de uma novela de Benedito Ruy Barbora, que foi ao ar entre 1983 e 1984 pela Rede Globo. Ela trouxe de volta seis personagens de Meu Pedacinho de Chão, do mesmo autor. Entre as figuras que retornaram estão Serelepe e Pituca, que, já adultos, têm um envolvimento amoroso.

Pedacinho de Chão, do mesmo autor. Entre as figuras que retornaram estão Pituca e Serelepe que, já adultos, têm um envolvimento amoroso.

Quem Malhação representa?

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A “vilã” se joga da escada para atrapalhar um momento romântico do casal principal e, em outra cena, segue os apaixonados para dar um flagrante. Poderiam ser cenas do elenco adulto de qualquer novela, mas foram situações vividas pelos adolescentes da vigésima primeira temporada de Malhação. Há pouco mais de um mês no ar, a história mantém os índices mornos (em torno de 15 pontos) e repercussão fria das ultimas temporadas.

Escrita por Ana Maria Moretzsohn e Patricia Moretzsohn, ótimas em tramas leves e despretenciosas, essa fase de Malhação padece do mesmo mal das demais: está mais próxima de uma novela do que de uma história juvenil, e acaba não sendo nem uma coisa nem outra. E o pior: está muito longe do que pensam, de como vivem e da maneira de agir dos jovens hoje em dia. A trama adulta ainda é de facil digestão, mas a parte “adolescente” é recheada de momentos constrangedores, principalmente em sala de aula.

Grande parte da dificuldade em elevar o nível da atração, com discussões mais atuais, vem do horário em que ela é exibida, o que impede a abordagem de temas mais polêmicos, como aqueles tratados por algumas séries americanas destinadas a este público. Perto do que é mostrado por lá, Malhação é quase uma história infantil.

Segundo a Globo, o programa sobrevive por ser um celeiro de talentos e pela marca forte. Este ultimo argumento já não deve ser tão considerado assim, já que toda vez que uma nova temporada é anunciada, o público olha desconfiado e com pouco interesse em conferir o que virá, tamanhos os erros já cometidos. Dessa forma, Malhação está mais parecendo aquelas jovens senhoras que tentam ser menininhas, mas só causam constrangimento por onde passam.

O turbulento voo de Salve Jorge

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Salve Jorge estreou há aproximadamente sete meses com alguns obstáculos: o horário de verão, a última semana da propaganda política obrigatória nas grandes cidades, e, o mais grave, o fenômeno de repercussão de Avenida Brasil, novela anterior, com a qual foi constantemente comparada. A trama de Gloria Perez tinha a difícil missão de manter o sucesso da novela de João Emanuel Carneiro. Não conseguiu.

O problema é que Salve Jorge foi quase o oposto daquilo apresentado em Avenida Brasil: teve excesso de personagens, ausência de figuras carismáticas e uma vilã fraca, entre outros inúmeros tropeços. Para ver Salve Jorge era preciso voar, como a autora chegou a dizer algumas vezes no Twitter. Mas, para o público voar, é preciso primeiro conquistar a cumplicidade dele, coisa que Salve Jorge nunca teve. Quando o público assiste algo que tem realismo fantástico, ele sabe que vai se deparar com situações absurdas e está preparado para que aquilo aconteça. Ele até deixa passar um ou outro deslize em tramas ditas realistas (como Nina não ter guardado as fotos de Carminha em um pen drive, em Avenida Brasil), mas Salve Jorge foi uma chuva de incoerências (uma igreja virou um point 24 horas, a vilã mata com uma seringada no meio de uma festa e ninguém percebe, uma traficada jurada de morte pela máfia circula pelas ruas para pegar informações, só para citar alguns). Quando uma autora precisa usar as redes sociais para justificar os furos do roteiro de uma trama é porque a coisa não está legal. Para ver Salve Jorge era preciso voar em um foguete, apenas os balões da Turquia não eram suficientes.

Foi o país asiático que teve as tramas mais prejudicadas quando a audiência da novela ficou abaixo do esperado. O núcleo turco praticamente sumiu (junto com dezenas de personagens brasileiros), as músicas turcas foram reduzidas (um CD só com estas músicas seria lançado, mas foi cancelado) e muito pouco do país foi mostrado. O público já estava enjoado das viagens, nos dois sentidos, da autora (os costumes lembravam muito o dos países retratados em O Clone e Caminho das Índias). Mas não foi só o texto que deixou a desejar, a direção matou algumas cenas que podiam render mais e a edição foi uma das piores já feitas na Rede Globo, cheia de cortes grosseiros e trilhas fora do lugar, sem contar os erros básicos de continuidade. Salve Jorge acabou caindo na boca do povo, mas por suas incoerências, tornando-se uma novela que os telespectadores amaram odiar.

Um dos maiores (e poucos) acertos da produção foi a escalação de Nanda Costa, que causou estranhamento no início. A atriz conseguiu segurar bem o seu papel de mocinha suburbana e “engoliu” aquele que deveria ser o galã da história. Rodrigo Lombardi, mais pelo do texto do que por sua atuação, construiu um Théo que beirou o insuportável. Mas o maior pecado de Salve Jorge foram os desperdícios: de talentos (Natália do Vale, Nicette Bruno, André Goncalves…), causado pelo excesso de personagens e de histórias que não se entrelaçaram, e de uma trama central que tinha tudo para render muito mais, não fosse recheada de momentos surreais. Com tantos tropeços, nem o guerreiro São Jorge conseguiu salvar a novela, que termina com uma das menores audiências entre as atrações do horário.